Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

De Moskestraat


  Putte é um vilarejo meio belga meio holandês. Fica espremida entre uma pequena floresta, e uma zona de floricultura. É bem pequena e não aparece nos mapas da fronteira. Na verdade, sequer apareceria nos mapas da vila, se eles existissem.  Passa um trem ali, vindo de Roterdã a caminho da Antuérpia a cada 30 minutos. Tempo suficiente para conhecer o local ficar entediado e esperar o próximo trem.
  A parte neerlandesa da aldeia contém: Um restaurante anexo à estação e ao escritório central(perceba, alguém um dia não só julgou necessário que se administrasse a vila, como providenciou uma SEDE para tal) uma linha cheia de bandeiras demarcando onde acaba o país, quatro cemitérios(o que, comparado ao tamanho da população local, leva a crer que, ou a região passou recentemente por um apocalipse zumbi, ou está no topo da lista holandesa de "1001 lugares para conhecer depois de morrer") , seis carros, dois cavalos, uma vaca(!) e uma mesquita.

  Uma mesquita.

  No lugar mais irrelevante do planeta.

  Não é muito grande, e na verdade não é nem mesmo bonita (embora graças à iluminação e equipamento certos, tenha ficado bastante impressionante no folheto turístico), mas ainda assim é uma mesquita e tem até um minarete. E vai me servir de partida para uma pequena reflexão sociológica de boteco. Prepare o estômago:

  Aparentemente, qualquer ser humano médio com um Q.I. razoável é capaz de reconhecer um forasteiro em segundos. E com raríssimas exceções, em qualquer lugar do mundo, as pessoas tendem a gostar de turistas. É disso que se trata o sorriso amistoso dos velhinhos pescando no canal da vila. Eles tentam falar inglês, perguntam palavras básicas na sua lingua, andam com você até o restaurante, te dizem o que comer, mostram a casa deles, te explicam porque odiar franceses e outras amenidades do tipo. Por um curto período, serão as pessoas mais receptivas que você já conheceu na vida.  Quem é você ou de onde vem, tanto faz nesse contexto, desde que você apenas aceite os queijos e siga viagem.
   Mas os  muçulmanos não eram simplesmente visitantes. Eles já eram uma porcentagem significativa da população nas grandes cidades e começaram a se espalhar por vilarejos como aquele no interior do país. E foi aí que as origens passaram a fazer diferença e os problemas começaram. Entenda, essas pessoas estão aqui há muitas gerações, morando na mesma casa de seus tataravós e, muito provavelmente, usando os mesmos móveis. A vida dessa gente se movimenta mais ou menos na mesma velocidade de um contra ataque palmeirense. Tenho a impressão de que se um dia um raio derrubar uma arvore, ela permanecerá lá indefinidamente e daqui 100 anos vão chamar o lugar de “árvore caída straat" ou algo assim.  E daí chegam essas pessoas, vindas de um lugar tão distante quanto diferente, e constroem uma mesquita ali no fim da rua(que não é muito grande nem bonita mas que é uma mesquita e tem até um minarete),  e em meses a vila passa por um processo de mudança que levaria séculos em outros tempos. É razoável imaginar que exista um pequeno choque cultural com a população local.
    Não é sobre religião, nem etinia, é sobre valores. Existe por ali um orgulho exacerbado da própria história e cultura. As pessoas não cedem um único centímetro daquilo que acreditam que as faz únicas, como povo.
   E como se não bastasse, ainda tem a tradição. Porque, se as coisas funcionam bem do jeito que são há milênios, quem convenceria essas pessoas de que não continuariam bem por mais alguns?
  Eu sei, você vai dizer que são assim os novos tempos e que o mundo está mudando mas...e daí? Em Putte se penduram sacolas do correio na beira do trilho. É como se todo mundo ali fosse o ratinho Hem de "Quem Mexeu no Meu Queijo"(não me olha com essa cara, eu sei que você já leu quando não tinha ninguém vendo) Se desse pra colocar a versatilidade de um lugar numa régua cuja escala máxima fosse, sei lá Jerry Seinfield, Putte estaria em Danilo Gentili.
  Agora, imagine que existam vários lugares assim por toda a Europa. Mais que isso, imagine que a Europa inteira seja uma Putte continental. Acrescente a isso uma meia dúzia de facistas de verdade, alguns políticos oportunistas, dois grandes atentatos e uma crise financeira. O resultado é uma crescente população  muçulmana em choque direto com uma islamofobia cada vez maior.

   Parece um caldeirão em ebulição, certo? O futuro parece tenebroso, certo? Mas, olhe outra vez e perceba que esse copo jamais vai transbordar. Em determinado momento, essas pessoas vão simplesmente deixar de ser forasteiras. Quero dizer, a mesquita vai continuar indefinidamente lá, no fim da Moskestraat. Ela não é muito grande e nem mesmo bonita mas é uma mesquita e tem até um minarete, ninguém de Putte pode ignorar isso. E ninguém na Europa pode fingir que essas pessoas são invisiveise por isso mesmo, ainda que a mudança seja gradual, em algum momento o Islã não mais será um corpo estranho na Europa.

   Até lá, a mesquita de Putte(que não é muito grande e nem mesmo bonita, mas é uma mesquita e tem até um minarete) já terá se tornado parte da paisagem e a vila voltará à sua irrelevância habitual que por esses lados, a história mostra, é o jeito mais eficiente de se estar em paz.