Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

Expresso Noturno

-Meme o que?
-Memmingen, senhor.
-E onde fica Meligeni?
-Memmingen, senhor. Fica na Alemanha.
-Dá pra ser mais específica?
-É toda a informação de que disponho senhor. Olha, você precisa decidir agora, o embarque se encerra em 5 minutos.
-Eu tenho alternativa?
-Portão 12 senhor. Boa viagem.

  Eu, que já estava naquele estágio em que você simplesmente vira pro lado e concede qualquer informação não solicitada, importunava o estranho ao meu lado com a história do meu bilhete pro único voo cancelado em Dublin e de como eu precisava urgentemente olhar um mapa e descobrir pra onde diabos estava indo. Ela ouviu e quando pousamos me contou que estava na mesma situação. Ou pior, já que eu estava de férias e ela, tentando voltar pra casa.
  Não era uma beleza estonteante. Quero dizer, todos os seus traços, considerados individualmente, eram extremamente bonitos, mas seu rosto como um todo dava a impressão de que ele havia sido feito apressadamente sem consulta ao manual. Provavelmente a palavra mais adequada seria "atraente".
  Eu fui atrás de um jeito de sair dali e ela foi descontar a frustração em alguém - pelo que entendi. No balcão de informações eu tive uma ideia real do quão longe estava de onde deveria estar: Dois trens locais até pegar um expresso noturno que só chegaria em Berlin na manhã seguinte. Eram duas da tarde.

  Quando a encontrei novamente, no guichê da companhia aérea, um funcionário se encolhia visivelmente diante de seu olhar fuzilante e piscava assustado toda vez que ela batia no balcão. Ela não falava em tortura, mas fazia parecer que não era uma opção totalmente descartada. De qualquer maneira, conseguiu o documento de reembolso que pleiteava e veio na minha direção acenando com o prêmio.

-O trem só parte em três horas. Vou andar por aí. Me acompanha?

  Memmingen parece uma cidade cinematográfica do Projac pra alguma adaptação mambembe dos irmãos Grimm na novela das 6. Uma praça central com um mercado (chamada, veja você, marktplatz) rodeada por grandes casas brancas de arquitetura germânica clássica com heróis pintados nas laterais. Mais ao fundo, alguns prédios de apartamento e um longo e suave aclive com ruas estreitas e casas de enxaimel bonitas, mas simples, amontoadas até um planalto, onde fica o aeroporto.
  Ela fotografava tudo. Era o que fazia pra viver, aliás. Australiana, vivia feito nômade pela Alemanha até encontrar em Berlin o único lugar onde poderia sobreviver de arte. Alugou um apartamento na Friedrich-Heine pra ficar próxima a seus iguais e o transformou em atelier. Eventualmente aproveitava uma dessas promoções de voo pra conhecer o resto da Europa. Aparentemente tinhamos ido a Dublin pelos mesmos motivos.

 -Ficar bêbada e me destruir.
 -Isso me soa familiar...

  O começo tinha sido difícil. O sotaque que misturava alemão e australiano estava além do que permitia minha pobre compreensão do idioma. Por isso ficava calado a maior parte do tempo. Do ponto de vista dela, talvez eu fosse só o primeiro exemplar de brasileiro tímido de que se teve notícia. Mas do meu ponto de vista, o diálogo foi:

- Eu vou oujjusdunds e no sábado se você quiser euajeushjuase e minha exposição é no domingo eu vou jhkjsdfkherh. Em todo caso você pode sdjkjejkalkjeiuw. O que acha?
- Claro! Porque não?
- Legal!

  Por conta disso andávamos em 3: eu ela e um bloco que gelo inquebrável e intrometido.Da minha parte já tinha até me conformado com a conversa de elevador mais longa da história da humanidade.

  Até que na primeira conexão, um policial me pediu o passaporte. Quando devolveu, comentou sorrindo que era a primeira vez que via um passaporte brasileiro em sei lá quantos anos na função. E ainda soltou um "gracias". Ora, nós somos milhares por aqui, mesmo nos lugares mais improváveis eu nunca passei mais de dois dias sem ver algum maldito fã de sertanejo. Nunca ter visto um brasileiro significava uma vida absurdamente limitada e rotineira sem talvez nunca ter saído daquela cidadezinha minúscula do interior. Acho que foi naquele momento - enquanto fingia interesse na história do time local e seu zagueiro brasileiro (que devia gostar de sertanejo também) - que decidi que não podia deixar ela se perder. Não pelo jeito como ela fechava os olhos enquanto sorria (um pouco por isso também) mas porque eu não queria ser como ELES.
  Era possível senti-los nas ruas. Os irrelevantes. Os comuns. Os silenciosos. Aqueles que tinham sido abandonados pelo destino e pela história. O povo das notas de rodapé, cuja única força estava em algum lugar do outro lado da sua imensa fraqueza, cujas crenças eram tão instáveis e comuns quanto as suas aspirações. E o povo da cidade - não os que moravam nas casas brancas da Marktplatz, mas os outros. As histórias nunca eram sobre eles. As histórias não estão, de modo geral, interessadas em carimbadores que permanecem sendo carimbadores e pobres cozinheiros gordos, cujo destino é morrer um pouco mais pobres e muito mais gordos.
  Essas pessoas eram as que faziam tudo funcionar, que preparavam as refeições, varriam o chão e recarregavam os estoques à noite, eram os guardas de imigração, os conferentes de trem, os balconistas de informações. Eram a loira de trança no balcão da cervejaria e o dono do último pub aberto na madrugada, o carteiro de alguma nowhere town e o chaveiro da rua vazia. Eram parte da paisagem. Eram os rostos na multidão cujos desejos e sonhos, por mais complacentes que fossem, não tinham nenhuma consequência. Eles eram os invisíveis.

- E eu aqui - pensei comigo - tentando enganar a sorte.

Era disso que se tratava, não? Ser mandado para o fim do mundo e ficar feliz por isso!
  Não era só atravessar um país de trem, havia uma outra viagem bem mais importante acontecendo ali e sorte era perceber. Que não havia nada em Berlin maior que os pequenos bares da bavária, e as cervejas de vending machines, e o volume baixinho das conversas no escuro, e a minha vida, e a vida dela, e as confissões entre semi estranhos e seus cochilos em ombro mutuo, e todo aquele sentimentalismo clichê do expresso noturno.
 Sorte era perceber que não conseguiria, ainda que pudesse, imaginar ninguém melhor pra me acompanhar  naquelas quase 20 horas. E que naquela manhã em Dublin eles me mandaram pra onde eu precisava ir. Porque se o fim do mundo era aquilo, se o fim do mundo era com ela, então o fim do mundo era exatamente onde eu deveria estar.

  Uma história. Isso é tudo o que você precisa pra vagar sua cadeira na vala comum dos iguais: uma boa história. Uma boa história e um bom final, é claro. As pessoas não se perdem no final das histórias. Elas se perdem no dia seguinte, depois da lista de próximos lançamentos, depois da orelha com a biografia do autor. Enquanto sobem os créditos ou quando entram os comerciais, logo após alguém na mesa mudar de assunto, é nesse momento que as pessoas ficam ocupadas demais e perdem telefones, endereços e interesse. Mas até lá já existiram os ímpetos de sinceridade que essas cervejas fortes alemãs costumam provocar e declarações mútuas de insanidade madrugada adentro.
  E é tudo o que importa. Uma boa história pra contar depois, dessas que ninguém vai acreditar, dessas terminam com promessas e reticências.

  Ela sabia disso também, claro que sabia. É a única explicação pra ter me puxado na estação de Berlin.

-Olha, faz isso depois, vem primeiro pra minha casa...



1 comentários:

Lia Lee disse...

Uma história é sim o que as pessoas precisam...
Particularmente, tou sempre batalhando pra não me tornar coadjuvante em minha própria história...