Eu não sei nem qual foi a última vez que ouvi essa expressão. Quer dizer, foi ontem, mas a ultima vez antes dessa deve ter sido mais ou menos quando montei uma bicicleta pela última vez. Minutos antes eu estava pedalando em meio a uma pequena batalha interna entre a viagem longa, o red bull e uma dor na coxa que me sugeria que a coisa toda de modo geral era uma péssima idéia. Na distração, passei direto numa bifurcação(é...) e acabei enganchando a roda na guia. Não foi uma queda muito grande. Grande mesmo foi a vergonha de subir a avenida principal da cidade com a roupa rasgada carregando uma bicicleta cuja roda lembrava uma escultura do Franz Weissman, e um “fucking tourist" escrito na testa.
O dono do rent-a-bike era tudo que não se esperava de um estabelecimento daquele tipo. Com cabelo espetado jaqueta jeans encardida e calça apertada, era basicamente um sósia do Kurt Russel num show de calouros, mas com uma noção de estilo que parou por volta de 1977. Ao que parece só falava holandês e parecia bem ameaçador quando me apontou o dedo. Fiquei observando a unha roxa de sujeira a alguns centímetros de meu rosto (como arma ofensiva ela tinha uma cotação bastante alta, especialmente se fosse algum dia usada na preparação de comida) e imaginando o que estaria fazendo quando decidiu vender o bar punk pra mudar de ramo.
Depois ele me mostrou o valor que eu supostamente deveria pagar pela roda retorcida e eu não entendi se era uma multa ou uma proposta de sociedade. Mal me deu tempo de responder e foi atender outro cliente, mas aí ELA apareceu. Adriana - ja tinha se identificado como brasileira quando pegou meu passaporte - veio sorrindo do fundo e falando português.
-Tá suave, ele tá brincando. Tem seguro é só pagar outro aluguel.
Na outra ponta do balcão vi ele se segurando pra não rir, provando que babaquice é um patrimônio universal.
-Acontece direto. Da próxima vez você pede uma com espaço pra mochila, fica menos desajeitado de andar.
Me prometeram que o estresse todo da ida ia valer a pena e que eu ia amar isso aqui, mas menos de quatro horas depois de desembarcar eu já estava cansado, ralado e sendo acachapado por um maldito punk sujo nesse coletivo de arroto que eles aqui chamam de idioma. Não sei vocês mas a mim não parecia um jeito promissor de começar as férias.
Porém um sorriso consolador, um cabelo bicolor, uma voz quase infantil e uma gíria deliciosamente antiquada mudaram tudo.
E agora tá suave. =)
To até pensando em voltar lá hoje pra saber se minha nova musa tem uma bicicleta com espaço pra mochila ou, quem sabe, um coração com espaço pra mim.
maré
-
Quando não há mais
o vazio
toma conta
do que era mar
vira sal
arde
coça
arranha
arranca
mar dos olhos
e enche
e há.
1 dia atrás



3 comentários:
Siqueira... o dia que vc parar de ter uma musa por dia, quem sabe vc arrume uma de verdade para todo o sempre...
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Ownnn que fofo!
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