Menos por curiosidade e mais pela incapacidade de dizer 'não', estávamos em um vilarejo chamado Tuamgraney na outra costa do Ulster, perto de Scarriff. O companheiro de viagem que me arrastou pra lá era Christopher, um inglês de Leeds que vinha, aparentemente há bem pouco tempo, estudando a língua irlandesa. Desde Dublin ele entrava na minha frente antes que eu começasse a falar e se comportava como uma espécie de tradutor numa mistura de inglês e gaélico provavelmente bem ruim, a julgar pela recepção das pessoas. O mais interessante é que ele parecia ser o único a não perceber e continuava insistindo naquilo alegando que deixava os locais mais receptivos. Por receptividade ou não, o motorista do ônibus teve ao menos a decencia de apontar a direção da vila quando nos largou na estrada.
Receptividade, aliás, não era a ordem do dia. O conceito de hospitalidade em Tuamgraney se resume a ignorar cuidadosamente cada novo visitante. Além da cota tradicional de indiferença, turistas ingleses ainda tinham direito a um generoso pacotinho de desprezo dos simpáticos nativos.
Não que o lugar recebesse muitos turistas ultimamente, é bem verdade.
Era, na verdade, um desses lugares que só existem para que as pessoas saiam de lá. O mundo está cheio deles: povoados remotos, cidadezinhas castigadas pelo vento na encosta, cabanas isoladas em montanhas frias, cuja única importância na história consiste em ser um lugar totalmente ordinário onde algo extraordinário começou a acontecer. Muitas vezes, nesses lugares, nada existe além de uma placa para indicar que,contra todas as possibilidades ginecológicas, nasceu alguém importante um dia. E essa era a maior prova de que os deuses celtas deviam curtir uma boa piada. Acontece que nasceu ali, Edna O' Brien, respeitada por feministas por seus romances de forte teor sexual na católica e radical Irlanda dos anos 60, venerada pela rasa direita brasileira por dizer que Chico Buarque era uma fraude, e conhecida pelo resto do mundo como autora da única biografia decente de James Joyce.
Saiu daí, aliás, a confusão. Por algum motivo não muito claro, confundiu-se criação e criatura e folhetos turísticos começaram a vender a imagem de Tuamgraney como a cidade onde nasceu o genial autor de Ulisses. Imagino as caras de surpresa quando o pequeno vilarejo se viu invadido por onibus e mais ônibus vindos de Dublin, cheios de estudantes magricelas e garotas com boina de aviador, ávidos por serem ignorados pelos amistosos habitantes locais.
Mas além da capacidade de beber como se não houvesse fígado, o que parece manter a sanidade irlandesa é a fantástica habilidade de conformismo. Não que os Tuamgranenses compactuassem com o falso boato de que o maior escritor da história da Irlanda tenha nascido ali, mas também não se esforçaram muito em desmenti-lo. Assim, no final da James Joyce Street, em frente à James Joyce Square, uma charmosa construção abriga o pequeno mas organizado memorial a, vejam só, James Joyce.
Fora isso não há mais nada na cidade. Quero dizer, QUASE nada. Porque onde houver uma vila, onde houver um irlandes, onde houver a tristeza de cair e ter de levantar mais vezes que qualquer outro povo no mundo, onde houver algum orgulho entre trevos e Lepechams, estará também aquele que se tornou base da civilização nesta parte do mundo: o Pub.
Antes de entrarmos, Chris foi bem específico "você fala comigo e eu falo com eles ok?". Ainda tentei argumentar que a coisa toda era uma má idéia desde o início e que ele precisava praticar mais antes de tentar mas meu inglês (escola Joel Santana) não permite um leque muito grande de argumentação. E de qualquer maneira, eu já havia concordado com idéias bem piores aquele dia(chegar até ali, por exemplo).
Lá dentro, havia um casal almoçando na única mesa ocupada, um velho bebendo no balcão e o barman/cozinheiro, que solenemente fingiu que não estávamos ali. Com a autoridade da cavalaria britanica cobrando impostos , Chris bateu com as costas do dedo no balcão e disse alguma coisa no idioma que ele jurava ser irlandês.
Ninguém entendeu, na verdade. O velho riu, o casal virou com curiosidade, mas o garçon, partindo do pressuposto de que qualquer um que atravessasse aquela porta estava a fim de beber algo, tirou dois pints de cerveja.
Chris segurou o copo dele olhando pra mim com ar de vitória. Preferi não comentar.
Sugeri que comessemos. Então, nosso intrépido poliglota despejou sobre o homem uma nova leva de seu mal articulado esperanto celta.
Ele ficou em silêncio por um momento, olhando pra gente com um misto de pena e indiferença. Depois respondeu com um seco "pode falar inglês aqui."
Saboreei, vingado, o silencio mais constrangedor da história da humanidade e pedi o que o casal comia.
O barman trouxe dois pratos do que, em respeito à cultura local, chamarei de comida. Muito tempo atrás, o Éire tinha vasta agropecuária e, a julgar pela quantidade de restaurantes com plaquinhas "celtic food", uma cozinha bem desenvolvida também. Aí vieram os ingleses e arrasaram tudo e só sobraram as batatas. Pois os irlandeses transformaram o nobre saponaceo em símbolo nacional e inventaram centenas de maneiras de misturar batata com batata. Mas aí apareceu um fungo nas batatas que dizimou mais da metade da população. Aí eles desistiram da comida e se concentraram na cerveja.
Cerveja que aliás, o velho parecia beber como água e uma pequena multidão de copos vazios se acumulava na sua parte do balcão. Olhou pra nós com uma expressão de quem só agora reparou nossa existencia e ergueu a caneca: "foda-se a sua rainha" disse rindo. Chris sorriu de volta, um sorriso desconfortável, mas com uma vantagem de uns 15 dentes em relação ao velho.
Aparentemente, era o check in ideal para o primeiro (e definitivo) penny de atenção que nos seria dedicado naquele lugar esquecido e, no fim das contas, seria mais incrível do que a visão de um velho bebado 13h de uma terça feira deixava transparecer.
continua...
Limpeza
-
Todo e qualquer sentido
gera um sentimento
sentir indo pro rumo
que for
vá
varrido
varrendo o sentimento
do mundo.
3 dias atrás



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