No Brasil é possivel fazer coisas com carne que um boi mediano jamais imaginaria. Mas na Bélgica não há muita carne disponível, menos ainda em Oostende, na costa. Desenvolveram ali uma cozinha baseada em frutos do mar do norte mas não sei. Isso pra mim não é COZINHAR. Trata-se apenas de se manter vivo da forma mais agradável possível. Ao que parece, exceto pelos peixes, as pessoas em Oostende não tem nada muito comestível pra colocar à mesa ou pelo menos o que eu considero comestível(coisas com no máximo duas asas ou nadadeiras, por exemplo, ou no máximo quatro patas).
Não havia muita coisa desse tipo em Oostende. É como se os cidadãos daqui simplesmente raspassem o fundo do mar com uma rede e fervessem o que quer que surgisse nela.
A questão é que um cozinheiro em Oostende era capaz de pegar o que encontrasse num punhado de lama, umas folhas mortas e uma pitada de ervas de nomes impronunciáveis e fazer um almoço digno de ser vendido por uns 10 euros no pequeno mercado central.
E você pode andar por lá, cutucar uns moluscos, conversar por mimica com algumas senhoras donas de barraquinhas que por alguns sorrisos oferecem estranhos ensopados ou mariscos para provar. Eu nunca tive medo de comer coisas estranhas, até porque a última vez que me lembro de alguma ter me feito mal foi um sashimi que, de tão velho, estava prestes a ressucitar e ter a dignidade e o bom senso de se jogar fora sozinho. Eu provei de tudo. Oostende, a cidade onde tudo virava comida, finalmente encontrou o apetite que merecia.
Mas aí havia essa tenda. Muito tosca, no final do mercado, separada de todas as outras e aparentemente vazia. Não tinha placa nenhuma do lado de fora mas uma panela grande borbulhando levemente no fogo. Tijelas rústicas de barro tinham sido empilhadas ao lado da panela. De vez em quando alguém ia até ali e tirava uma concha do que quer que fosse e largava umas moedas no prato ao lado.
Olhei dentro da panela. Algumas coisas inindentificáveis vinham até a superfice e depois afundavam de novo. A coloração geral era marrom. As bolhas se formavam, cresciam e estouravam de modo viscoso com um ‘blop’ orgânico. Tudo poderia estar acontecendo naquela panela. Poderia haver uma geração espontânea de vida.
Eu ja havia provado tudo pelo menos uma vez(algumas coisas, varias vezes) Mas chega um momento na vida, em que é preciso usar o senso de auto preservação. Há momentos em que é preciso dizer não.
maré
-
Quando não há mais
o vazio
toma conta
do que era mar
vira sal
arde
coça
arranha
arranca
mar dos olhos
e enche
e há.
2 dias atrás



1 comentários:
Esbarrei sem querer naquela estrelinha dos FAVORITOS, e lá estava a chuva paulistana. E agora são 4 da manhã e eu aqui pensando pq é q eu deixei de ler vc. Não lembrei.Deve ter sido naquele dia em que eu tive uma pseudorevoltainterior, e resolvi apagar orkut, msn...Aff, q bobagem. Mas que bom que eu tinha te add ali na estrelinha.Como sempre, uma delícia de ler. Queria um de vc aqui, no sul. mas sem a arrogância, e com menos propensão a encontrar musas. PERFECT. Mas perfeição nao existe, ne?
Brigada pela companhia (mesmo involuntária) que tu me prestaste nessa madrugada com essa maldita insônia. Vais continuar na estrelinha, ta?
Beijo...
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