Eu tinha uma certa empatia por ele. Quero dizer, imagino que os administradores do centro cultural que o contrataram não devam ter sido muito específicos sobre suas atividades. Algo como "só fique parado. Se acontecer alguma coisa, improsive".
Talvez por isso quando lhe fiz uma pergunta ele se mostrasse tão impaciente.
-Por favor, quando começa a apresentação do Bortolotto?
Ficava de pé na entrada do lugar, segurando um radinho, ouvindo um desses programas de futebol. Aquele uniforme de segurança obviamente não lhe caía bem. Na verdade, alguém perfeitamente capaz de envergar bem uma camisa daquele tamanho era perfeitamente incapaz de assumir um posto de segurança e eu chuto que essa deve ter sido a causa da demissão do portador original da farda. Me olhou de cima a baixo. Não foi um olhar longo, só o tempo exato para, na opinião dele, deixar claro toda sua aversão a pessoas que pedem informação. Depois retomou a posição original e continuou observando a rua.
-Sei nada de horto não senhor. - disse, já sem olhar pra mim - Pergunta pra moça lá dentro.
-Mas não tem ninguém lá dentro.
Olhou pra mim outra vez. Parecia perdido com a resposta.
-T...T...Tenta no segundo andar, ela deve estar lá.
-Já olhei, trancado.
-E o mural?
-Nada lá.
A julgar pela sua expressão de desespero, eu acabava de leva-lo a um novo quarto escuro de sua mente. Dava pra ouvir o barulho da fechadura trancada quando ele piscava.
-Moço e...e...eeeu sou novo aqui...
Não respondi. Ele tentou de novo.
-Espera um pouquinho que a moça já deve voltar
-Ok.
Quem poderia culpa-lo? Ignorancia é a ordem do dia, não? Dia desses por exemplo a NASA deu uma coletiva para reporteres do mundo inteiro anunciando que uma bactéria num lago tóxico sobrevivia de um jeito que eles achavam impossível. E que isso trazia novas questões sobre o que poderia se considerar essencial à vida.
Uma convocação geral para o dizer que o que era antes não é mais, há muito mais para procurar e se sabe ainda menos do que se sabia. E que isso é extremamente excitante!
Tudo era tão mais simples em outros tempos. O universo encontrava-se cheio de ignorância por toda parte, e os cientistas o exploravam como garimpeiros agachados diante de um riacho nas montanhas, buscando o ouro do conhecimento em meio aos cascalhos da insensatez, às areias da incerteza e aos insetos da religião.
Vez por outra um deles se levantava e dizia algo como “Eureka!” ou “É isso! Descobri a Terceira Lei de Boyle!”. Todo mundo admitia que não sabia onde estava pisando. O problema é que a ignorância se tornou mais interessante, sobretudo a grande e fascinante ignorância sobre assuntos enormes e importantes como a matéria e a criação. As pessoas pararam de construir suas casinhas de sensatez no caos do universo e começaram a se interessar pelo caos em si - em parte porque era muito mais fácil ser especialista no caos, mas principalmente porque rendia ótimas letras de música.
E, em meio ao caos, a ciência deixou de tentar fazer coisas úteis(como procurar a maldita borboleta que anda causando tempestades pelo mundo) e sairam por aí dizendo que era impossivel saber alguma coisa e que na verdade não havia nada que se pudesse chamar de realidade e que essa era a parte legal. Aliás, você sabia que talvez existam dezenas de pequenos universos por toda parte mas ninguém os vê porque eles estão curvados para dentro de si? Fala se isso não valeria um Grammy pro Arcade Fire?
E aí toda uma nova classe de interjeições foi elaborada com o único objetivo de evitar qualquer contato pessoal desnecessário que acabe por, deus o livre, diminuir o tamanho de nossa tão valiosa ignorância. Nada que não possa ser respondido com "pois é" "né?" "anham" e afins pode ser digno de nota. Funciona magnificamente por esses lados.
Cento e cinquenta anos depois da invenção do elevador as pessoas desenvolveram um vocabulário tão vasto que extrapolou o seu interior e se tornou um modo comum de iteração social em grandes cidades como SP. Quero dizer, ninguém te aborda no cafézinho da firma com um “Ta sabendo? A proporção, em massa, dos elementos que participam da composição de uma substância é sempre constante e definida pelo volume e pressão, independente do processo químico pelo qual é obtida.” Como alguém responderia isso sem tornar a conversa PESSOAL demais?
E enquanto eu esperava alguma coisa acontecer, essa centenária tradição era competentemente exercida pelo guardinha que nada sabe.
-Joga bola esse Lucas heim!
- Ô...
...
- Puts que nó cego…subiu na guia com uma vaga desse tamanho!
- Né…
...
- Viu o negócio lá no Japão?
- Anham...
Eu gostei do jeito dele. É alguém que definiticamente sabe viver melhor que eu nessa cidade ignorante, nesta época ignorante. Quero dizer, eu poderia acampar ali na porta e ao final de uma semana ainda não saberia seu primeiro nome. Ao menos ele não tentava me convencer de algo(Ou que algo não existia, outra obsessão destes dias).
Era o dia errado do show e a “moça lá de dentro” já tiha ido embora. Mas quem poderia saber, não é verdade? Quem sabe de qualquer coisa nessa cidade? Lá pelas estepes cinzentas de Pinheiros, nem mesmo a mais absurda das hipóteses soaria absurda. Por aqui, ao que parece, só se tem uma certeza inabalável:
-Parece que vai chover hein?
-É...
maré
-
Quando não há mais
o vazio
toma conta
do que era mar
vira sal
arde
coça
arranha
arranca
mar dos olhos
e enche
e há.
1 dia atrás



2 comentários:
Adorei o texto. Muito bem escrito, e muito envolvente. Parabéns, amigo.
E eu era ignorante sobre esse seu talento pra escrita.
Muito, muito bom.
8 )
beijo
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