"A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!" Trecho do diário de José de Anchieta.
Acho que essa cidade existe bem à beira da realidade. Ela é cheia de coisinhas sem importância que eventualmente conseguem atravessar para o outro lado. Por isso mesmo, as pessoas em São Paulo levam as coisas a sério. Como as histórias.
Porque histórias são importantes.
As pessoas pensam que dão forma à história quando na verdade é justamente o oposto. A história costuma mudar as pessoas que pensam estar mudando-a. Porque a história não nasceu ontem, se é que vocês me entendem.
As histórias existem, independente de seus participantes. Se você sabe disso, esse conhecimento é poder. Essas grandes fitas vibrantes de espaço-tempo modelado, agitam-se e desenrolam-se pela cidade desde muito antes de os jesuítas chegarem. E evoluíram. Histórias mais fracas se perderam no tempo, mas as mais fortes continuam por aí, engordando a cada vez que são recontadas.
Sua simples existencia, caro leitor, forma um desenho tênue, porém insistente no caos do universo. As pessoas deixam sulcos profundos o suficiente para que outras pessoas sigam da mesma maneira futuramente e ISTO é a história. Novos atores repetem o trajeto e os sulcos ficam mais profundos.
É disso que se trata São Paulo. Pessoas, e suas histórias, identicas às anteriores. Rotinas que se reeditam há 457 anos e seguirão assim porque há 11 milhões de pessoas afundando os sulcos da realidade. Em literatura chamam isso de casualidade narrativa. Significa que a história, uma vez iniciada adquire uma forma. Ela capta as vibrações de todas as outras versões já vividas. Por isso a história vive se repetindo o tempo todo.
Partindo desse princípio, é justo dizer que a cidade é uma espécie de parasita. Todas as histórias se moldam em torno dela. Eu tive um amigo que largou tudo e mudou pro interior da Bahia resmungando que isso aqui estava “sugando” ele. Faz sentido. Parte do conceito de se morar em SP é isso. É inconscientemente entregar sua vontade, sua força, sua criatividade e principalmente, o controle sobre sua própria história, a um nada abstrato que é a própria história da cidade.
O curioso é que ainda assim as pessoas se orgulham dela. Declaram seu amor, fazem poemas e até batizam blogs em homenagem à sua condição meteorológica.
Se você sacou o tamanho dessa dualidade é aqui onde, com sorte, esse texto pode fazer algum sentido. Observe:
Tudo aquilo que você viveu em função da História Maior escrita desde 1554 permaneceu por aqui, sua própria versão repetida história. Logo, você também se torna parte daquilo que o consome, certo? Portanto, essa relação de mútua dependência te faz também parte indissolúvel da cidade. Sei lá em que buraco de calçada eu vou praguejar contra a história de alguém e sabe-se lá também como andam tratando minha por aí.
Vocês eu não sei, mas foi a isso que celebrei na semana passada. Porque eu não simplesmente moro aqui. Eu reivindico orgulhoso minha contribuição à formação dessa pocilga. Fato é que, por toda essa intersecção temporal que falhei miseravelmente em explicar, me sinto parte de São Paulo e tenho tanto orgulho disso como tenho de ser quem sou.



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