Anos depois a reconheci no metrô. Foi totalmente por acaso, não sabia nem que morava em São Paulo agora. Carioca, era a última conexão com uma vida que parecia nunca ter sido a minha. Da casa da matriz, dos onibus noturnos, do drum and bass. A última vez que tive notícias, pelo irmão, tinha se mudado pra algum lugar obscuro da Europa nem perguntei pra que. Se formou finalmente em psicologia e parecia bem.
Umas semanas e uns telefonemas depois, sentava do lado oposto da mesa e dissertava sobre alguma coisa desinteressante que tinha a ver com o monotrilho.
Do que me lembrava não mudou muito, na verdade. Falava de um jeito mais arrogante, talvez, mas não chegava a ser incomodo. Ah e ganhou uns kilos, mas eu não ando lá em condições de atirar a primeira pedra.
Em algum momento antes mesmo de o garcon parar de me ignorar, o papo já tinha caído na minha vida. Eu não percebi na hora que a intenção inicial era justamente essa.
-Sei lá, parei de correr pra conseguir tudo de uma vez. Eu tava ficando louco e frustrado.
-Frustrado é inevitável, sim. Mas não te imagino correndo com nada.
-Haha eu corria muito naquela época.
-Olha...
Na lingua espanhola, colocam um ponto de interrogação de ponta cabeça para avisar que você está prestes a receber uma pergunta. Aquele era um “olha” que avisa que você está prestes a receber uma rajada de AK47.
- Tá eu sei que andei meio procrastinador - respondi, ignorando o perigo iminente
-Nem acho que é isso. Sempre acontece alguma coisa. Tem sempre um problema te impedindo. Você é medíocre e tem medo de deixar de ser. Seu medo é que faz de você tão pequeno.
-Não é. Eu sempre gostei de tudo planejado. Eu sou muito prudente e...
-Prudencia, procrastinação você pode dar o nome que quiser Rique, voce pra mim é um cuzão. Sempre foi. Com a mudança, com a faculdade, comigo… com o que mais acontecer.
-Esse é seu parecer pessoal ou profissinal? - repondi tentando sorrir. Tenho certeza que deve ter sido um sorriso equivalente áquele do Holyfield na luta com o Tyson enquanto, coberto de sangue, fingia ignorar um pedaço de sua orelha na mão do juiz.
-Pessoal. Eu não dou consultas grátis.
E assim, depois de um silêncio constrangido, o jantar, foi diminuindo a velocidade em conversas casuais e incoerentes sobre os velhos tempos. Pouco menos de três anos tinham se passado mas parecia uma vida. Três anos nessa cidade SÃO uma vida. E acrescente a isso a capacidade ruminante dela. O que o complexo sistema digestivo de um camelo faz com comida, ela faz com ofensas. Uma resposta atravessada, uma despedida que não chegou a acontecer, um presente que ela nunca entregou, tava tudo lá, pronto pra ser trazido de volta e pacientemente remastigado, cruelmente estocado em cada resposta. Ela seria capaz de me ofender falando sobre o tempo. Era a personificação da mágoa.
E, olha, ela tinha material. Sempre foi boa ouvinte, talvez por isso tenha tornado essa sua profissão (aliás taí uma qualidade injustamente ignorada. Todo mundo sabe que a maioria das pessoas não ouve. Quando alguém está falando, aproveitam o tempo para pensar no que dirão em seguida. Ouvintes verdadeiros sempre foram reverenciados nas culturas orais e recompensados pela raridade de seu valor. Ha um bom orador em cada esquina e qualquer um pode citar 15 grandes escritores. Mas um bom ouvinte é dificil de se encontrar. Ou, pelo menos, de se encontrar duas vezes). Mas de tanto me ouvir talvez ela tenha reunido argumento suficiente pra pensar no que gostaria de dizer.
Divertido e acalentador. Nessa loucura metropolitana as relações se tornam cada vez mais descartáveis e é agonizante a facilidade com que as pessoas se perdem umas das outras. Ser esquecido é como perder uma pequena parte de si mesmo. Por outro lado, um rancor forte o suficiente para atravessar os anos e o Atlantico, é uma dessas pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. Se alguém te odeia com dedicação maior que essa, sinceramente, amigo, você venceu na vida.
- Sabe, nunca tinha pensado nisso. Acho que você tem razão.
- Né…
Virou o olhar pra janela e ficou um tempo observando o movimento na rua, quem sabe pra esconder a decepção. Talvez isso lhe rendesse mais alguns anos preparando a tréplica.
É só uma teoria, claro, mas acho que tudo se resume a crença. O que quero dizer é que a forma como as coisas terminaram a magoaram de tal forma que ela tinha todo um discurso pronto que, ela acreditava, me humilharia e a vingaria.ela tinha FÉ nisso. Não precisava de uma confirmação.
E aí estava o problema.
No fundo no fundo ela não esperava realmente o reencontro. Porque a crença na verdade é um fim em si. É só uma forma das pessoas se sentirem melhor. Convenhamos, a fé não PRODUZ nada ( a despeito do que dizem as escrituras sagradas, quando se trata de, por exemplo, mover montanhas, a gravidade costuma ser consideravelmente mais eficiente que a fé).
E era a fé que a cegava. Ela jamais entenderia a beleza daquele momento, jamais saberia o tamanho da minha gratidão...
-Tá sorrindo de que?
-É muito, muito, bom reve-la…
E talvez os acontecimentos recentes tivessem mesmo provocado alguma alteração na natureza da realidade, porque, enquanto comiamos, pela primeira vez na história, um bem-te-vi cantou na Avenida Santo Amaro.
Ninguém ouviu por causa do ruído do tráfego, mas que estava lá, estava =)
Felicidade, tomates podres e Tom Jobim
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Nós somos claramente responsáveis pelas consequências das nossas atitudes.
Como há duas semanas, quando me dei conta de que tinha guardado a conta de
luz ...
4 dias atrás



5 comentários:
:)
Seu posts conseguem acabar com o dia de qualquer um. Fato.
A análise pessoal foi ótima...
Hahuahuahuahuahu só você mesmo
sinceridade é mesmo tudo nessa vida?
rs
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