Pra ler ouvindo: Chromeo - Don't turn the lights on
Sobre bolinhos
Primeiro ato - Cinismo
Ouviu-a falar alguma coisa antes de ligar o chuveiro. Não entendeu o que era e também não se importava. Conhecia a figura havia coisa de um ano, nunca teve paciência pra conversar por muito tempo e provavelmente não teria agora. Não eram 10 horas e a manhã seria longa.
Preferia a personagem que ela incorporara na noite anterior: um vestidinho curto cujo conteúdo encontrava-se convenientemente carente e excepcionalmente receptivo...
Terminara com o namorado dias antes e sorria mais que de costume(por pura obrigação social, é bem verdade). O ex tinha deixado as coisas dela numa sacola velha na tarde anterior, o que garantiu um saudável descenso em seu ego (em situações normais insuportavelmente inflado). A despeito dos contorcionismos faciais pra simular indignação enquanto ela contava, entendia perfeitamente o cara. Menos por solidariedade de gênero e mais por ela ser quem era. Do tipo que colocava as próprias fotos de fio dental no facebook (com tags personalizadas).
Ele bebeu descontroladamente aquela noite, antes dela aparecer. Primeiro porque a noite estava uma merda, e segundo porque parecia que ia piorar. Quando ela ignorou os amigos e foi direto cumprimentá-lo, entendeu imediatamente o que estava acontecendo e o que poderia acontecer se fizesse tudo direitinho. Agora só precisava relaxar, tentar parecer sóbrio e ser o hipócrita que sabia ser...
Era um cara comum, não era bonito. Só tinha chance porque elevava o cinismo ao status de virtude. É claro que aquele tipo de coisa - de dizer exatamente o que as pessoas queriam ouvir - falhava miseravelmente a longo prazo ele sabia. Mas, merda! Era só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte. E se você não puder justificar todo tipo de atitude cretina com o fato de ser só um bêbado cheio de testosterona numa noite de rara sorte, então a sorte era absolutamente dispensável, a testosterona ficava pra academia e podia passar a noite inteira à base shweppes.
Segunto ato - Constrangimento
Maquinava uma boa desculpa para mandá-la embora, quando ela saiu do banheiro enrolada com a toalha apenas no cabelo, o que o fez mudar de idéia momentaneamente. Pra falar a verdade, era óbvio que ela pensou na cena toda e fez de um esforço parecer sexy, mas não tinha a classe que julgava ter e exalava todo o sex appeal de uma propaganda de Catuaba Selvagem. Tudo bem, era mais do que suficiente pra uma manhã de domingo; ele não ia reencenar o Ultimo Tango em Paris, afinal. A real é que qualquer conversa acabava, invariavelmente, em queda livre.
- Pra que esse aquário? Você tinha peixe?
(Não. Eu criava gado)
-Tinha, um Betta.
-Hmm ti fofo! Qual era o nome dele?
-Tem que dar nome pra peixe?
-Tem né! E cadê ele?
(escondido embaixo do sofá!)
-Morreu.
-De que?
(bateu um papo contigo e perdeu a fé na vida)
-A moça que limpa aqui disse que foi fome. Prefiro acreditar que foi solidão.
-Pode ser...e esse ap tem uma energia pesada né.
(Oh god! feng shui de boteco a essa hora da manhã?!)
-Ah eu não acho.
-Tem muito preto.
-Não gosto de coisa colorida.
-Compra outro?
-Outro apartamento?
-Outro betta. Deve ter no e-bay.
(claro, eles vão entregar enrolado num jornal. Don Corleone mandou lembranças)
-Acho que não vai ter não moça.
-Menino tem de tudo no e-bay. Eu compro até clembuterol lá.
-Esse treco não é proibido?
-No e-bay tem de tudo.
-É perigoso, moça. Tu fica uns 20 minutos numa taquicardia do cacete. Periga até sofrer uma parada cardíaca
-Ah, 20 minutos é pouquinho.
E sorriu. Cara, ela era linda. O cabelo, as tatuagens, o cruzar de pernas, o sorriso, até o jeito patético de tentar parecer sensual tinha sua beleza... Vinte minutos não era pouco. Se ela pudesse passar vinte minutos sem dizer nenhuma estupidez, ele pediria pra ela nunca ir embora.
Utopia, claro. Agora por exemplo, os peixes a haviam feito se lembrar de uma cachorra que teve quando adolescente. A Loba. E ele se perguntou que tipo de gente chama uma cocker spaniel de Loba, e porque ele precisava ouvir aquilo. Mas não dizia nada, só sorria e fazia cara de quem se interessava imensamente por biografias caninas.
- Olha, eu acho que meu pai vem aqui hoje. Acabou de me mandar uma mensagem - disse, olhando para um celular delator, que permanecia criminosamente apagado e silencioso. Ela percebeu.
- Sei. Bom, é melhor eu ir indo então. Também tenho um dia cheio.
(cheio, sei, cheio de fossa pelo ex, sorteve na frente da televisão com alguma comédia romantica)
- Ok então. Não me leva a mal né? É que faz tempo que ele não me visita.
- Magina, tudo bem.
Tinha uma coisa no olhar que o fez se sentir mais relaxado: Decepção. Ai sim! Sua zona de conforto. Não que fosse exatamente confortável, mas pela primeira vez, desde que acordara, sentia-se atuando dentro de sua especialidade. De tao recorrentes, olhares de decepcao faziam com que ele sentisse que as coisas
estavam em seu devido lugar. E ficou ainda mais fácil com ela vestida.
Terceiro Ato - Bolinhos
Enquanto esperava o elevador na volta, pensou na falsidade daquilo tudo. Ele não era exatamente bonito e deveria se sentir agradecido pela oportunidade de decepcionar alguém do nível dela, mas só fez piadinhas crueis com tudo o e ela falava. E o que era ele, afinal? O que fazia dele melhor, mais capaz ou sequer mais inteligente que ela? Não que se arrependesse. Ah não! Ela ja tinha pincelado clemb na conversa, mais meia hora daquilo e ia discutir arroz integral.
Mas aquele tipo de auto consciencia era novo pra ele. Carregava uma explicação inconvenientemente plausível. O que vez por outra lhe tirava o sono, o que tinha medo de dizer em voz alta o que nao confessaria nem se alternativa fosse uma manha de ressaca com a a genia do vestido curto. O que ha mais tempo do que poderia lembrar o transformara num canalha mentiroso e hipocrita. Mas que era de um obvio tao ululante mas tao ululante que valia somente para fins de registro: ele nunca seguiu em frente de verdade, nunca virou a pagina nunca superou o fim e nunca permitiu que nada ficasse sério demais desde então. E o motivo por que vinha adiando tão boba conclusão era que nao tinha a menor idéia de como proceder, simples assim.
Talvez fosse o caso de procurar alguma dignidade no e-bay.
Mas isso podia ficar pra depois. Tinha jogo importante no Morumbi aquela tarde e era melhor evitar o transito...
maré
-
Quando não há mais
o vazio
toma conta
do que era mar
vira sal
arde
coça
arranha
arranca
mar dos olhos
e enche
e há.
2 dias atrás



3 comentários:
Terceira pessoa? Sério?
Honestidade é para os fracos
O peixe não morreu de solidão, morreu atacado por baratinhas!!!
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