Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

A justiça do acaso.

  Foi lá pelo meio do ano passado se não me engano. Eu tinha tirado férias num desespero de mudar de emprego que era comovente. Tipo epopéia mesmo. E numa dessas entrevistas eu a conheci. Foi das mais traumaticas experiências da minha vida (com exceção talvez de uma ocasião em que acordei sentado numa calçada da alameda franca sem celular e sem carteira, depois de ter sido expulso do extinto clube Atari mas o spoiler dessa história já é suficientemente bizarro pra contar o resto).

  Se apresentou como "diretora de recursos humanos" e entrou na sala acompanhada de uma mocinha que parecia ser bem simpática. Apresentou-a como "es-ta-gi-a-ria-em-trei-na-men-to" com um prazer quase sexual ao enfatizar a função café com leite da pobrezinha, que parecia algumas silabas mais franzina após a apresentação. Ela me olhava de um jeito que fazia parecer que responder suas perguntas era mera formalidade, que ela simplesmente arrancaria a verdade da minha mente enquanto tentava me concentrar no calendário em cima da mesa. O olhar dela era tão poderoso que me admirava não caíssem pequenos blocos de concreto cada vez que ela encarava a parede atrás de mim. Foi tão taumático que ouvir dela que não tinha o perfil ideal para a vaga foi quase que um alivio pois significava que eu tinha alguma perspectiva de sair vivo daquela sala.
  Coisa de uma semana depois ela tava num desses jornais do inicio da tarde numa sessão que dava "dicas profissionais" (o que é meio paradoxal, uma vez que deve ser unanimidade entre as empresas a opinião de que assistir televisão à tarde ao invés de trabalhar provavelmente não seja a atitude profissional mais recomendada) e quem aparece como a "especialista" em alguma coisa? Ela! Com o mesmo estilo austero e confiante que me lembrava...transbordando credibilidade.
 Lance é que eu tava tão confiante que essa moça lia minha mente que quase corri pra cozinha fazer um capacete de papel alumínio a la Joaquin Phoenix em Sinais pra terminar de assistir a matéria.

  Mas no fundo, no fundo, eu sou um otimista. Se há alguma coisa que me sustenta nos tempos difíceis é a profunda e definitiva certeza de sair relativamente ileso e de que o universo ou o acaso, cuidarão de mim no final.
  E o mundo meus amigos, o mundo é ainda menor do que você pensa, o mundo é um banheiro de kitnet no Copam você pode acretidar.
  E o acaso é implacavel. Implacável!
  Imagine por acaso eu estava na balada, meses depois, e por acaso ela tá dançando do meu lado. E por acaso eu conhecia de vista algumas pessoas do grupinho de amigos dela e por acaso ela não me reconheceu, veja você que demoninho do mal é esse tal de acaso.

   Sabe aquela prática comum em locais onde pessoas se comunicam (leia-se qualquer cidade exceto Curitiba) de oferecer sua bebida pra quem está na mesma roda que você? Entenda, não é uma obrigação aceitar, é apenas um ato de sociabilidade. Ela por exemplo tinha a opção de recusar todas as vezes que ofereci, o que me exclui de qualquer responsabilidade pela postura dela depois de pouquissimo tempo.

 Tudo no universo existe em função do nome. Mude o nome e você muda a coisa. É claro que, entre um e outro, há uma enorme burocracia e uma infinidade de outros elementos envolvidos. Mas, paracosmicamente, é só isso mesmo.Agora por exemplo a "diretora de Recursos Humanos" era "a tia da balada".
Em termos práticos, aquilo significava que de uma bela mulher de fala segura, postura ereta e jeito arrogante, ela estava reduzida a uma semi baranga num vestido que transitava impunemente entre o vulgar e o cafona e que obviamente desconhecia os proprios limites etílicos dançando como se sua idade fosse na verdade o hiato entre esta noite e a última vez que tentara aquilo em público.
  Eu não posso mensurar o quanto era divertido, amigos. Não por me sentir vingado (talvez um pouco, sim) ao imaginar a ressaca moral em que ela estaria envolvida no dia seguinte, mas por perceber que até a "especialista da TV" pode muito bem ser tão ridicula quanto você ou eu quando destituida de sua proteção hierárquica corporativa.

  Eu lembrei dessa história porque, limpando minha caixa de e-mails ontem, achei o convite para uma festa (que eu nem fui) em comemoração ao aniversário da empresa e anexo vinha um artigo escaneado sobre DICAS DE COMPORTAMENTO em festas de empresa. Eu ia dissertar sobre como achava babaca convidar alguém a uma festa e anexar um código de conduta(sobretudo um que recomende comedimento no consumo de bebidas alcoolicas), e como aquilo era tão chato quanto aqueles papeizinhos em convite de casamento com “a  lista de presentes encontra-se na…”. IA  meus amigos eu IA porque descobrir o autor do artigo no final, me fez rir como não ria desde o rebaixamento do Corinthians.
  Descobrir o autor do artigo me fez aprender uma lição pra vida. De que tudo que você precisa quando as coisas forem mal, é ridicularizar alguém. Não quero bancar o babaca auto ajuda, mas, vai por mim, quando tudo mais perder o sentido, quando nem toda tequila do mundo for suficiente, quando nenhuma perspectiva de futuro lhe parecer satisfatória e a dor for insuportável, não se desespere! Corra pra balada e trate de entupir de vodka a primeira recrutadora de recursos humanos que encontrar.
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1 comentários:

Milla. disse...

Lembrei de um episódio do Garfield que assisti anos atrás: 'Se não conseguir se divertir as suas custas, diverta-se às custas dos outros'.