Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

Por um bom porre. Por uma boa vida.

E a gente vai tomando, que tambem sem a cachaca ninguem segura esse rojao.“ (Chico)

No dia em que ela foi embora eu tomei meu melhor porre. E isso não é uma divagação melancólica  e tá bem longe de ser algum tipo de confissão romântica. É mais como uma constatação factual, do tipo  BBC Ciencia ( Daquelas matérias aleatórias que começam todas com "Pesquisa comprova que..." e fazem você se perguntar se um cientista se sente realizado profissionalmente ao descobrir, após meses de pesquisa, que ingleses de 25 a 30 anos e estatura média produzem 1,5 vezes mais vitamina D aos sábados) e talvez tão inútil quanto mas eu não encontrei maneira melhor de introduzir o assunto.
  Já tem coisa de um ano (talvez mais, por motivos óbvios fiz questão de não guardar a data exata) e agora dá pra falar disso com o distanciamento necessário. Eu tinha saído do trabalho direto pro boteco sozinho porque no fundo sou um tradicionalista e quis cumprir o ritual clichê do kickado na mesa do bar. Eu vou chegar na razão do título, mas antes, realize a cena da pessoa alterada sozinha na mesa do canto, assistindo um jogo qualquer da série B do brasileiro. Nos vemos depois do trecho itálico. Até lá!

Provavelmente alguma coisa no limão lá pela quinta tequila o fez perder a conta das seguintes. Pra facilitar a contagem, a garçonete não limpava a mesa e uma pequena e acusadora pilha de copos dava a impressão de que um drunk poker com uma quantidade ilegal de participantes havia acontecido por ali.
 Levantou e, naquele exato momento, o motorista do Movimento de Rotação e Translação da Terra deve ter sido fechado por um motoboy maluco e pisou no freio de uma vez. Fato é que o chão se mexia caoticamente.
   Abriu as pernas de maneira ridícula pra não cair e esperou o bar parar de balançar. Puxou a cadeira num movimento que não chegava a ser consciente, vindo de um cérebro fragilizado demais para demonstrar mais que um vago interesse nos procedimentos básicos, e sentou rapidamente, antes que a gravidade percebesse o que estava acontecendo. As pessoas da mesa ao lado ja olhavam com certa atençao e provavelmente faziam comentarios maldosos. Acendeu um cigarro esperando a gravidade perder o interesse nele e tentou outra vez, agora com relativo sucesso.
   A garçonete perguntou "você tá bem?" com a naturalidade de quem faz essa pergunta várias vezes ao dia. My bad, a resposta dele envolvia ironia, lingua enrolada e os peitos dela. Ela o ajudou a se sentar de volta e ele podia repetir o a ironia, podia diverti-la com a lingua enrolada, pode simplesmente agradecer, mas preferiu repetir o comentário babaca a respeito dos peitos. (absolutamente verdadeiro, é bem verdade, pero colossalmente desnecessario).
  Ela sorriu. Nao era um sorriso frio. Ele ja havia recebido muitos sorrisos frios antes. Nao. Aquilo era o equivalente facial a um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Era o tipo de sorriso que separa homens de meninos. Era a expressão de quem pretedia colocar, senão um ponto final, ao menos uma vírgula em sua existência. Era o modo mais sutil que ela encontrou de lhe confidenciar como adoraria esquarteja-lo com um alicate de unha.

  Eu fiquei tão atormentado com aquilo que saí sem nem esperar o troco(mentira, eu esqueci mesmo. Que atire a primeira pedra quem nunca fez o número do "bebado rico". Além do mais, o bar ficava numa pequena elevação e eu duvido que tivesse condições de subir as escadas novamente). Mas voltando pra casa eu só conseguia pensar naquele maldito sorriso. Na crueldade que ele tentava simular e em como parecia existir uma espécie de linguagem facial específica que parecia funcionar como código social. Eu falo disso num próximo post mas, percebe a beleza da mudança de foco?
  Poucas horas antes eu tinha perdido o chão e parecia que nunca mais ia parar de cair, sabe?  Quero dizer, eu perdera algo muito importante e àquela altura eu deveria estar em um momento de contemplação depressiva, questionando valores, éticos, morais, profissionais e ideológicos.
  Mas ao invés disso, eu fazia conjecturas filosóficas, sobre a careta forçada de uma garçonete(feia) de uma espelunca qualquer da Liberdade.

  Eu sempre lembro dessa história quando pretendo exemplificar essa relação com o álcool. Não to dizendo que preciso disso pra viver mas admitindo que a vida fica muito mais simples quando vista do lado certo do balcão.
  Eu tenho notado que há um certo culto da classe média paulistana (sobretudo da minha idade) aos anti depressivos. Eu juro que entendo. Porque olha, não sei que ilusão venderam pra você mas a vida adulta às vezes pode ficar bem dificil, sobretudo em São Paulo. Essa cidade SUGA a gente, sabe? É um monstro indomável. É o bully sociopata da quinta série. A cidade vai apontar pra você e rir, vai te espancar sem aviso no pátio da escola e vai roubar seu lanche às vezes.Tem gente que aguenta, tem gente que foge e tem gente que quebra.
  Eu posso dizer com absoluta convicção que vivo muito bem por aqui. Apesar de concordar que possa ser um jeito imediatista e inútil de resolver um problema (dia seguinte você acorda com o mesmo problema E dor de cabeça) ninguém disse que a intenção era soluciona-lo. No fundo, quem reza no altar da fluoxetina, ou quem toma lá seu pileque só quer esquecer os problemas por um momento pra não enlouquecer e aí quem sabe tentar viver de maneira minimamente digna por aqui.

 Por mais paradoxal que possa parecer, minha sanidade mental depende daquilo que a tira eventualmente.

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4 comentários:

rayssa gon disse...

detesto ler seu blog e ver que vc escreve muito menos do que deveria. :(


adoro. beijo.

Ricardo Siqueira disse...

haha obrigado ray! tentarei ser mais frequente

Dani Brito disse...

Pelo menos você não chegou ao ponto de achar a garçonete feia, bonita!
Eu nunca fiquei bem bêbada ao ponto de não querer contrariar a gravidade, mas já cheguei ao ponto de ver o bar rodar, de cantar samba no palco e ouvir minha amiga dizer masturbação quando na verdade ela dissera Camisa da Seleção. Fiquei bem feliz mas depois chorei pakas, achei estranho.

Throwing it all disse...

Sim, ela nos espanca, nos suga, mas vale a pena pelo que ela nos dá de volta.

Sampa não vai nos dar tudo (só nós, daqui, sabemos o que é esse tudo) sem nos tirar ao menos um pouquinho.

É como um troca.

;)