nota para outsiders: Embu-Guaçu, ou apenas Embu é uma cidade a 58 km da capital paulista, ainda na região metropolitana, com acesso pela rodovia Régis Bittencourt(BR 111) que se liga ao trecho sul do Rodoanel(SP-21) recém inaugurado.
PRIMEIRA PARTE AQUI
Eu costumo dizer que a cidade não nasceu. Ela aconteceu, simplesmente. O sistema de tráfego de São Paulo é muitas centenas de vezes mais complexo do que qualquer um imagina. Isto não tem nada a ver com forças ocultas. Tem mais a ver com situação social, geografia, história e urbanismo(ou a falta dele). Às vezes(e só às vezes), isso funciona de modo vantajoso para as pessoas, embora elas nunca fossem acreditar. Isso, claro, quando não chove. Acontece que sempre chove. E choveu àquela tarde. Esta parte sim, uma desagradável cortesia dos demoninhos supracitados.
São Paulo não foi projetada para carros. Indo mais direto ao ponto, ela não foi projetada para pessoas. Isso criou problemas, e as soluções que foram implementadas se tornaram os problemas seguintes, cinco ou dez anos depois.
A mais recente solução é o rodoanel, uma rodovia que forma um círculo ao redor da cidade. Até o momento os problemas haviam sido praticamente básicos: coisas como a obsolescência de algo antes de sua construção ser finalizada, filas einsteinianas que acabavam se fechando em torno de si mesmas e a ausência de um plano B, pro caso da caríssima obra não surtir o efeito desejado.
Mas neste dia em específico, uma caminhão de sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável havia tombado na entrada da anhanguera, esparramando litros e litros de sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável pela pista. A concessionária devia estar retirando o sei-lá-o-que-corrosivo-e-inflamável de canudinho. Porque só isso poderia explicar a interdição por quase uma hora de TODAS as pistas do sentido São Paulo da larga (e cara, não canso de lembrar) rodovia. E depois disso eu ainda teria de enfrentar a Marginal.
Carros, teoricamente, são um método fantasticamente rápido de se viajar de um lugar a outro. Carros em São Paulo, por outro lado, são uma fantástica oportunidade de se ficar absolutamente parado. Na chuva, e no pôr-do-sol, enquanto ao seu redor a sinfonia cacofônica de buzinas fica cada vez maior e mais exasperada, o inferno se instala em cada automóvel deste estacionamento publico...
E 3 horas depois de sair de Embu, o Fulano, que já tinha virado um daqueles irmãos que a gente ganha nas adversidades (tenho horror a acampamentos mas imagino que pessoas que se perdem no mato desenvolvem amizade semelhante) me deixou enfim na bela e pacata provincia sino-niponica da Liberdade (o floreio é só pra dar uma dimensão da felicidade de chegar em casa).
A companhia até que foi bem agradável, sabe? Ele até perguntou se podia colocar um cd, o que provavelmente me salvou de ouvir alguma coletanea de Sertanejo Universitário no repeat.
Na verdade, ele estava ouvindo um album com "O Melhor da Bossa Nova", mas não se deve tirar nenhuma conclusão disso porque todos os cds deixados num carro por mais de um semestre se metamorfoseiam em álbuns com "O Melhor da Bossa Nova".
Em algum momento entre Samba do Avião e Desafinado, eu peguei no sono. O vislumbre seguinte era extra corporal, uma visão aérea, quase um Google Maps mental:
O fim do mundo estava chegando e as pessoas corriam para a salvação em algum lugar o mais longe possivel de Embu-Guaçu, a cidade maldita (essa parte meu subconsciente deve ter roubado de um filme chinês HORRIVEL que assisti dia desses). O rodoanel não existia; pelo menos não em termos espaciais humanos. A fila de carros que não estavam cientes disso, ou que tentavam encontrar rotas alternativas para fora de São Paulo, estendia-se até o centro da cidade, de todas as direções. Não haviam rotas alternativas, não haviam viadutos, tuneis ou corredores de onibus. Pela primeira vez em sua história, São Paulo estava completamente paralisada. A cidade inteira estava imersa em um imenso engarrafamento.
Não fosse um sonho, obviamente pensaria que o melhor a fazer era descer e procurar a pé um bar aconchegante e beber até ficar completa e profundamente fora de sintonia com o mundo enquanto esperava o fim dele chegar.
O problema é que quase mil novos carros por dia e o noticiário da manhã me fazem crer que talvez, TALVEZ, a cidade esteja mesmo despreparada para o caos iminente. Se um motorista cheio de cafeína, bolinhas brancas e regulamentos de transporte é capaz de parar um dos principais gargalos de entrada da cidade imagine o que acontece DENTRO dela? O que acontece quando os corredores colapsam? O que acontece quando 2 milhões de felizes beneficiados do IPI reduzido decidirem colocar suas máquinas na rua? O que acontece quando não houver mais espaço nem acima nem abaixo do solo?
Não imagino que o inferno tenha a competencia e criatividade de inventar algo pior que isso. Na verdade, tenho certeza que naquela noite, a comitiva infernal em visita enviou pelo malote corporativo um relatório para o "andar de baixo" com um memorando: Caras, aprendam!
Talvez o armagedom chegue com quatro cavaleiros, pestes, fome, guerra e milhões de kilômetros de motoristas impacientes tentando voltar pra casa.
ps. É meu segundo vislumbre do apocalipse(o primeiro foi num restaurante japonês) e tenho medo de que no terceiro acabe dando atenção àquele cara do greenpeace parado na esquina da Brigadeiro com a Paulista(embora eu sempre desconfie de sujeitos brancos de cabelo rastafari).



3 comentários:
Que posso dizer além de "formidável"? Uma descrição perfeita do trânsito de São Paulo e todas as possíveis ocorrências que nos mantém paralizados horas a fio nas ruas sem conseguir chegar em casa. Você escreve muito bem e de forma muito envolvente. Dá vontade de ler até o fim.
Parabéns, inclusive por vencer esse dia difícil que vc viveu.
Será que posso te esperar lá no meu blog pra tomar chocolate comigo? Vai sim...
Beijos.
ricardo, vc se lembra daquelas chuvas foderosas do começo do ano? umas 2 ou 3 vezes a cidade parou pq as marginais estavam alagadas.
pois bem, com o caos instalado nas vias de transporte, eu me encontrava num onibus. sim, sim. e o que as pessoas faziam assim q notavam que não se podia ir ou voltar? começavam a ligar loucamente pra seus entes queridos. ou seja, caos nas telecomunicações. qualquer pais que pretenda nos invadir, nos render, não vai precisar de armamento e exercito, mas de agua. muita agua. o resto deixa com a gente mesmo.
Muito, muito bom o texto!!!!!
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