Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

Mala Suerte

O cara do post não sou eu. Isto é um texto de ficção.

Imagine um cara. Meio gordinho disfarçado, meio musculoso. Não se acha baixinho com 1,75, mas acredita que seria uma pessoa bem mais feliz se tivesse uns 2 metros. Ele mora em São Paulo, porque, em respeito ao título desse blog, meu personagem precisa ser paulistano. E ele, coincidentemente se chama Ricardo. Na verdade ele se chama Ricardo Siqueira, por uma dessas absolutas coincidencias da vida. Os amigos o chamam de Siqueira, ou Sica, porque um ex amigo babaca decidiu que existiam Ricardos demais no mundo. E era um babaca popular.
E já que é um post de suposições, suponhamos que Deus exista.


Deus não joga dados com a vida desse cara; Ele joga um jogo inefável de sua própria criação, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, (todos os dois) a uma obscura e complexa versão de pôquer numa sala completamente escura, com cartas em branco, por apostas infinitas, com um crupiê que não lhe diz quais são as regras e sorri o tempo todo.
E a vida dele varia entre lances errados e lances MUITO errados.
Esse cara ontem descia a rua augusta, completamente bebado, com um amigo. No sentido contrario, vinha uma dessas indies, de cabelo desfiado e um vestido que definitivamente, não fora feito pra ela. Ela era meio desconjuntada, e parecia vestir um saco. Lembrou que a ex namorada tinha um parecido e resolveu mandar uma mensagem de texto pra ela. Sabia que ela estaria dormindo se ligasse, mas na mente etílica dele, era extremamente importante que ela soubesse que nem todas ficavam tão bem quanto ela naquele tipo de vestido e que isso era uma virtude, afinal.

Ainda tentava lembrar o que aconteceu depois quando um estrondoso barulho de sirene o trouxe de volta ao quarto. O telefone parecia ter tocado dentro da cabeça dele. Estava no modo de vibrar e era como estar deitado na cama de 'O Exorcista'. Já passava das 3 da tarde.

Era um amigo.

-Ahm.
-Fala Sica...
-Que é?
-Tá com dor de cabeça?
-Não, mas to tentando lembrar como cheguei aqui.
-Eu te levei.
-Valeu.
-Brother...pega leve...você perdeu a noção ontem. Usou alguma coisa?
-Não lembro nem de ter bebido...
-Bixo...sem noção...sem noção.
-To com medo de lembrar de ontem.
-Bom..só liguei pra saber se tava vivo.
-Brigado por me trazer em casa.
-Tá...
-Falou!
-Falou...
-Ah...outra coisa...
-Que?
-Sabe da L?
-Tu se atracou com uma gordinha estranha lá bixo. Ela viu. Foi embora.
-Até mais.

O amigo desligou sem responder...
Não tinha mandado a tal mensagem pra ex namorada. Mandou foi uma porção delas, algumas bem líricas, que ela respondeu de manhã, reclamando de ter sido acordada. Porque toda vez que ficava bebado ele se sentia o Pablo Neruda do SMS?
E conforme a consciencia conseguia, a duras penas, retormar um mínimo de normalidade, algumas coisas começavam a fazer sentido.
Nada daquilo havia acontecido. A tal cena da augusta e o tal sms, ele mandou meses antes e a resposta tinha a mesma idade. A conexão, ele notou, era ter revisto a mesma garota desconjuntada na noite anterior....

...

ela usava o mesmo vestido, ou um parecido, tanto faz. E continuava parecendo sofrer de lordose cronica. Puxou assunto.

-Vestido bonito
-Obrigada
-Só elogiei O VESTIDO.

Ela e as amigas riram. ELAS RIRAM! Incrível a falta de respeito próprio dessas meninas da noite. E tinha uma amiga. Era bem gordinha e...ah não...NÃO!!!


...

Ligou pra L. Ninguém atendeu. Não era pra menos. Fosse com ele, também não atenderia. É realmente incomoda a forma como as regras do jogo mudam quando suas cartas já estão na mesa e é tarde demais pra recolhe-las. E ele até que era um bom jogador. Não tinha sorte...só isso. Lembrou dela lhe dando uma oportunidade única...

...

-Não vamo entrar não. Vem pra casa comigo.
-Mas eu prometi pro pessoal
-Ah pára Siqueira. Acha que alguém vai sentir falta?
-Olha só, a gente entra, fica duas horinhas e sai. Beleza?
-Tá, né


...

Começou a escurecer...havia passado a tarde inteira olhando pro teto e desenvolvendo uma respeitável ressaca moral. Tinha sido um dia quente e úmido...a janela estava aberta quando começou a garoar.
Era como uma versão incomodamente real daquele flamenco famoso.

Llovizna,
Llovizna...
a bañar mi mala suerte
a bañar la surte
mina
Llovizna...

Levantou da cama de um salto procurando. O sentido da vida ou o telefone da pizzaria, o que viesse primeiro...veio o telefone ...

Tudo aquilo soava como uma piada divina. Mas a verdade é que até o conceito de divino soava como uma piada.
Por que fazer as pessoas curiosas e depois colocar algum fruto proibido absolutamente visível, com um grande dedo de néon piscando e dizendo "É AQUI!"? Quero dizer, apontar para a Árvore e dizer "Não Toque", em maiúsculas, não é lá muito sutil, sabe? Por que não colocá-la no alto de uma montanha ou num lugar bem distante?
Não faz sentido, como nada em sua pregressa educação religiosa nunca fez e por isso, infelizmente a conclusão de que ele era, afinal, único e exclusivo responsável pelo que fazia a si e a outras pessoas. E no processo evolutivo, ele sabia, gente como ele seria fatalmente extinta. Uma pena, estava começando a gostar desse negócio de botar a culpa em alguém.
Mas o fato é que havia sido divertido. E definitivamente ele não era o único a sorrir, em sua memória. Porque tudo era culpa dele afinal?

Tudo aquilo o deixava clautrofóbico, vestiu a roupa da noite anterior (ainda jogada no chão com manchas que ele nem desconfiava a origem) e foi pra rua.
Já era noite e algumas quadras à frente tinha um bar lotado. Nunca tinha entrado lá e as pessoas sentadas do lado de fora não o tornavam muito convidativo.
"Foda-se", pensou, "é melhor que ficar em casa remoendo essa merda."
E lá dentro a unica mesa livre ficava ao lado de uma cantora de cabelo maltratado, que desafinava em oito tons diferentes, acompanhada de um sósia do Roberto Leal que tocava Djavan no violino.

DJAVAN!!!

NO VIOLINO!!!

E no canto mais escuro do inferno, alguém sorria e anotava mais um ponto...

13 comentários:

Criola disse...

Sua vida desgraçada rende ótimas crônicas.

Nina disse...

Ai, você se fodeu. EU NÃO. Isso não é maravilhoso? hahaahah
ãnfãn. No final dá tudo certo, a gente vai se fodendo dilevs no percurso vez ou outra mas né, TAÍ UMA ÓTIMA HISTÓRIA NÉ NÃO? Tu perde uma boa oportunidade de um sécso casual mas ganha fama. NÃO É INCRÍVEL? ....é eu também preferia o séquiço mas né, quer fama e uma vida boa? QUER DEMAIS NÉ?

Meu sábado à noite no inferno da vila olímpia me rendeu o melhor sorriso irônico da minha VI-DA.
Mas depois te conto em detalhes hahah

Grecchi disse...

bixo... apaga esse telefone da sua agenda. Por favor!

Dani Brito disse...

Pior seria acordar, olhar na mão esquerda e ver uma aliança dourada, vc olha para o lado e tem uma mulher que ocupa um terço da cama, ela tem pêlos no suvaco e bigode. Você pergunta: "- O que está acontecendo aqui?" E ela responde: "- Estamos em lua de mel, amorzinho."
Daí vc olha pela janela, e ve que está passando a honeymoon na praia grande!

Ágatha Barbosa disse...

"Levantou da cama de um salto procurando. O sentido da vida ou o telefone da pizzaria, o que viesse primeiro...veio o telefone ..." é o tipo de frase q me faz ter a esperança de que a nossa cultura vai estar dentre as mais complexas análises de sociedade mitica.
Tudo isso podia ser só mais uma historinha emo de bloguinho brincando de ser desgraçado, mas se podia é pq já tem moda inevtada naquilo que tem toda uma profundidade de ser. (a pizza chegou, já volto)

rayssa gon disse...

Por que não colocá-la no alto de uma montanha ou num lugar bem distante?


douglas adams em "restaurante no fim do universo" ligou e mandou um beijo.
eu tbm mando um beijo afinal acho digno ser pablo neruda de sms.

Ricardo Siqueira disse...

Rayssa, é TOTAL Douglas Adams, um de meus ídolos. Mas acho que tem mais a ver com "A vida o universo e tudo mais" que o restaurante.

Juliana Mestres disse...

Só confirmou uma certeza que eu tinha. Celular em mão de bêbado não é algo muito prudente. Principalmente os pós-pagos, que não acabam os créditos nunca...

Thá disse...

O segredo da porre está no simples fato de não misturar.

Nuncaaa se deve misturar augusta + álcool + celular + lembranças + vontades, porque sempre dá = a merda.

FATO.

claudio disse...

"Foda-se", pensou, "é melhor que ficar em casa remoendo essa merda."


isso eh de um livro do jose joaquim ximenes braga

Ricardo Siqueira disse...

Não conheço Joaquim Ximenes Braga(nem o google, mas abafa). Procurei a frase que você comentou. Com e sem aspas. E não achei nada.

Pode dizer qual o livro e onde encontro esse autor? Acusar de plágio assim "anonimamente" é meio bobo né?

Ricardo Siqueira disse...

É. De fato não existe nenhum Joaquim Ximenes Braga. Era só um troll e eu caí.

Milla. disse...

É...em cada esquina tem um bar...ainda bem!