Primeira parte de um texto de 3 posts sobre um companheiro fiel, feito de feltro, borracha e muita personalidade...
Eu não podia acreditar no que via. Não podia suportar tamanho disparate! Parafraseando o deputado carioca, o vizinho do 67 despertava em mim os sentidos mais primitivos. Eu já podia prever as manchetes no Diario Popular ou no Agora: "Homem descontrolado mata vizinho a beliscão" ou "Esquartejou vizinho com
faca de passar manteiga". Eu me imaginava invadindo o apartamento 67 com um pé na porta e uma .50, bem ao estilo Al Pacino em Scarface, "Say hello to my little friend!" e pa pa pa pa pa...
No começo parecia só uma brincadeira ou um mal entendido. Mas a cena começou a se repetir dia após dia por semanas a fio: Eu chegava do trabalho e lá estava, meu capacho, um pedaço da minha identidade, uma continuação de mim, repousando criminosamente sob a porta do apartamento 67. Maldizendo toda a árvore genealógica do larápio por trás daquela porta(que eu imaginava soltando maléficas gargalhadas me observando impune pelo olho mágico) recolhia meu pequeno eu de volta á seu habitat natural, bufando e resmungando até o onde minha educação permitia demonstrar contrariedade.
Não se toca no capacho de um homem, isso é coisa séria! No caos minimamente organizado de uma cidade que vive 24 horas no limite da sanidade, o que seria se homens de bem de repente não encontrassem mais seus respectivos capachos instalados em suas portas? Veja bem, nós temos os enchentes, as filas na marginal, a confusão nos coletivos, a criminalidade que intimida, a pressão diária por resultados profissionais utópicos e o constante clima de estresse de uma enorme massa trabalhadora flagelada pela dura competição do mercado e pela responsabilidade imputida no auto denominado posto de "locomotiva do Brasil".
Mas se você for capaz de sobreviver a isso, depois do mamute diário vai sempre poder contar com a desejada tranquilidade do conhecido e da segurança simbolizada por um simpático "bem vindo" como a sorrir recompensadoramente no chão da porta. Ou quase sempre, porque o monstro do 67 estava determinado a desmoralizar esta emborrachada instituição!
Percebe a gravidade do assunto? O fim da certeza do capacho seria o fim da era da razão! A anarquia! O armagedon social! Uma reação em cadeia fatalmente extinguiria todas as práticas básicas de convivência e o modelo de sociedade ocidental que conhecemos ruiria por completo. Restaria apenas o grande nada da
incerteza sobre o qual desfaleceriam os escombros dos valores fundamentais. Aquele sacripanta, aquele gênio do mal, estava disposto a destruir o mundo como conhecemos.
Veja bem caro leitor, antes de dizer "esse retardado tá falando de um tapetinho?" eu gostaria que pensasse a fundo sobre isto.
O capacho é mais que um pedaço de borracha e pano. Ele é a roupa de um apartamento, é a identidade do morador, a forma como ele pretende que o mundo o veja. Nada pode ser mais determinante da personalidade de qualquer personagem metropolitano que a decoração de sua fronteira com o mundo externo. É como a bandeira nos portões da muralha. Eu passaria horas observando as pessoas na rua e imaginando que tipo de capacho elas teriam em suas portas. O gigante da academia, o chileno da banca, o taxista bebado do Clash ou o entregador que sempre traz o troco errado. Todos eles teriam capachos condizentes com a respectiva imagem que eu faria deles.
Vou além. Muito me admira o mais célebre apartment dweller do mundo, Woody Allen, fazer tantos filmes com mães judias e reservar aos capachos apenas uma ponta como figurante esconde-chaves. Na real, se existissem edificios residenciais em 1899 a obra máxima de Freud seria "A análise dos capachos".
E o meu é exatamente como eu. E ele também tinha uma história. Há alguns anos, quando saí da casa de meus pais, levei mais tempo para encontra-lo que para mobiliar o apê. Vou poupar os detalhes mais intimos sobre o dia em que nos conhecemos mas resumindo foi algo como uma criança num canil, evitando os olhares de pena dos candidatos a se insinuarem prevendo seu fim num shinbu coreano. Eu havia andado o dia inteiro e estava a perto desistir quando troquei olhares com o eleito, the choosen one, o Neo dos capachos, O messias das camadas duplas de feltro.
Começava a nossa história...




5 comentários:
Queria eu fazer um texto completamente genial sobre um carpete.
Me rendeu um sorriso no trabalho.
Merci, merci senhor.
continue. continue. continue.
Vou me dedicar a entender a sua filosofia ;D texto ótimo
Vc me fez olhar com novos olhos meu tapetinho sujo da porta de entrada (que ainda bem que nem ousar surrupiar de minha porta!)
Esses textos estão muito sérios!
Parece o povo pretensioso que escreve mal do meu curso de produção literária...
Mas vc escreve melhor que eles.
Quero mais cinismo. Vc é especialista, sendo um desperdício não mostrá-lo aqui.
(eu não posso ser a única pessoa a expor atos ridículos do meu círculo de blogs... fico solitária)
bj
e voce posta quando?
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