Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

Capachianas (Parte 2) - Dona Neide

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PRIMEIRA PARTE AQUI

-Muito bonito o seu tapetinho viu?
-Meu tapete?
-Da porta! Muito bonito viu?

Ela sempre me arrancava um sorriso quando dizia isso. Talvez por isso o dissesse com tanta frequencia. Não se pergunta a idade de uma dama mas posteriormente eu soube: 83. Baixinha, coisa de 1,50 cabelos curtinhos e enormes óculos de armação grossa que, a julgar pelo que enxergava, eram meramente decorativos. Morava com a uma outra senhora, provavelmente mais velha que ela e intelectualmente nula que estava sempre com um olhar perdido, uma expressão distante. Era sua irmã que eu mentalmente sempre conheci como "o pinheiro"(muito alta, muito fina e, obviamente, um vegetal).  Eu constantemente cruzava com as duas, inseparáveis e a cena bem poderia ter saído de um livro do Terry Pratchett: Uma velhinha pequena e falante arrastando pela rua uma espécie de mancebo vivo de cabelo branco.
  Elas tinham uma au pair que me acordava aos berros todas as manhãs de segunda a sexta. Embora sempre me assustasse a gritaria no apartamento vizinho, eu descobri sozinho que era estritamenta necessária, uma vez que Dona Neide não tinha mais os ouvidos de outrora. Depois de quatro meses testando os limites sonoros do condomínio(musica sempre alta sobretudo de madrugada, montagens no domingo e furadeira ás 3 da manhã) nos encontramos no hall do elevador e ela me saiu com:
 -Mas é você que mora aí é? Eu achei que esse apartamento tava vazio. Você é tão quietinho...

  A surdez de Dona Neide e a indiferença patologica da irmã já seriam o suficiente pra criar em mim simpatia instantânea pelas duas. Talvez justamente por não ouvir muito bem, ela tenha se dedicado com tanto empenho á atividade que lhe restava: falar. Intermitantemente. Não havia qualquer separação entre frases e provavelmente se achava velha demais para entender o que era uma virgula. Sempre foi um mistério pra mim como ela respirava. Ouvi-la era como ler Saramago.
 Mas Dona Neide tinha uma certa sensibilidade, ela sabia como me agradavam os elogios ao capacho, e quando me via sabia exatamente como ganhar minha atenção. Sua figura, acompanhada do pinheiro, no hall do elevador me era sempre simpática mas era o capacho que nos unia. Depois de ouvir um elogio, eu sempre acabava dedicando algum tempo a ouvi-la.
  Não era fácil acompanhar o raciocinio de Dona Neide. Ela costurava pelos assuntos com a agressividade e velocidade irresponsável de um motoboy na marginal. E igualmente também costumava acabar em choques violentos. Quase todos eram dirigidos ao Doutor Filho da Puta(maiúscula sim, porque Dona Neide tinha tanto cuidado em pronunciar 'Doutor' antes de cada insulto dirigido ao seu ex geriatra que muitas vezes parecia que aquele era mesmo seu nome). Segundo ela, sempre que reclamava da súbita perda de visão e eventuais dores de cabeça ouvia do médico que "aquilo era normal, coisas da idade". Descobriu que tinha glaucoma tarde demais para evitar a perda de 100% da visão do olho esquerdo e boa parte do olho direito. Nunca ouviu um pedido de desculpas do médico e sempre que tropeçava ou esbarrava em algo, homenageava a mãe do doutor. Eu mesmo vi a cena diversas vezes e era tragicômico.

 -Meu filho ia processar ele mas o desgraçado ainda fez o favor de morrer, doutor filho da puta!

  Nunca soube como terminou a história pois ela ainda andava ás voltas com a ouvidoria do convênio médico quando a irmã faleceu. Aquilo a transformou completamente. Esquecia nomes, números, recontava o que havia contado 10 minutos antes, enxergava cada vez menos, já não falava tanto. Me interfonava só pra ir até lá confirmar se não havia esquecido nenhuma torneira aberta. Ás vezes havia. Eu estava quase de mudança e, num arroubo sentimentalista, prometi deixar meu capacho pra ela quando fosse. Na verdade, quando chegou a hora, contei com sua memória claudicante pra descumprir a promessa.
 Talvez por isso que ver meu tapete na porta do 67 me deixava tão transtornado. Não por ela, mas pela idéia de que aquele objeto em específico era capaz de portar lembranças e guardar com ele cada época e cada momento de cada fase vivida nos ultimos anos. E ficava imaginando quanto mais ele ainda poderia presenciar. Como um daqueles vasos enterrados, em que arqueólogos encontram rastros de uma civilização inteira, aquele pedaço de pano era cada amigo, inimigo, conhecido, romance. Era a Giovanna, o Renato, a Carol, a Carla, o Guilherme. E era Dona Neide. Roubando meu capacho, o vizinho roubava também uma parte da minha história e um pouco do significado de quem eu era.

Eu decidi escrever essa história no dia em que soube que apenas algumas semanas após me mudar, a mãe do doutor foi poupada. Dona Neide não acordou. Mas ao invés de uma senhora cansada que perdeu a unica companheira e morreu de solidão, prefiro a imagem da velhinha meio cega, meio surda e totalmente irritada que, cansada de brigar com o plano de saúde, foi pessoalmente tirar satisfações com um médico filho da puta.

Continua(clique aqui)...

6 comentários:

Bruno disse...

"Na verdade, quando chegou a hora, contei com sua memória claudicante pra descumprir a promessa."


hahahah... incrível!

Idiota disse...

Já to aguardando a continuação da história.
Como caminhar sem a Dona Neide nessa crônica???

Quéroul disse...

olá! a chuva tava brava ontem em SP (e hoje, e amanhã, e pelos mais de 35 dias consecutivos, nénão?).
logo após vc passar pelo meu blog, eu fui contar a história do Parque da Independência e Milton Nascimento.
és bem vindo novamente. :)

ê Dona Neide... "ouvi-la era como ler Saramago"... :D
bonito.

Idiota disse...

Respondendo ao seu comentário lá no Cagada de Urubu...
Eu falei pra criatura antes de começar qualquer coisa que não ia entrar em nada porque o lugar ainda estava quente e ocupado. A insistência foi dele. Eu concordo com você, mas a pessoa insistiu exaustivamente e falou que não ligava. Isso é sinal que assumia a responsabilidade, não?
Enfim, agora sou uma carmelita descalça celibatária e amante de Jesus Cristo Superstar.

Ricardo Siqueira disse...

Um dia te conto dos poderes alucinógenos da testosterona e vc vai entender o moço.

Paula Gicovate disse...

Este texto é tão, tão bonito...