Ah! Este orgulho máximo de ser paulistanamente!(Mário de Andrade)

E o salário ó...

Ronaldo briou muito no curintia. Roberto Carlos depilou os peitos por tras do terno azul. Caê arrumou encrenca até com o ditador cubano. O ditador cubano deu pra virar blogueiro. Suzana Vieira interpretou ela mesma (sem o bombeiro) na TV. Dick Cheney(aquele da "segurança nacional") iniciou um movimento pra provar que Obama não é americano. O filme novo do Guy Ritchie é igual ao anterior, que já era igual ao primeiro. Tudo isso somado ao cd novo da Gal Costa mostra que o "e o salário ó" de Chico Anysio ontem apenas fechou com chave de ouro um ano em que ninguém soube a hora certa de parar. Paul Samuelson grande entusiasta da aposentadoria compulsória e falecido dias atrás, mal teve tempo de se acomodar ao caixão e já deve ter dado um twist carpado ontem ao ver o sexagenário professor Raimundo.
E que 2009 acabe logo, antes que mais alguém resolva voltar.

Natalinas.

São Paulo, sexta feira 20h. Avenida Brasil, Brigadeiro Luiz Antonio e 23 de Maio completamente paradas porque há um monumento über kistch piscando ensandecidamente em frente o Ibirapuera. E a Avenida Paulista após as 19h vira um estacionamento porque 150 anos depois de Thomas Edson ainda tem gente maravilhada em ver uma lâmpada piscando! Nada contra o espirito natalino sabe? Eu adoro ver as pessoas passeado pelas luzes da Oscar Freire se imaginando na Times Square. Tem apple houses, tem gadgets on sale, tem até winter cookies na starbucks! Dia desses ainda neva nos Jardins!
Mas não é justo levar meia hora a mais pra voltar do trabalho porque você quer ver o Papai Noel pendurado na árvore.
Mas tudo tem seu lado positivo e é aí que entro no motivo deste post: Nobutoshi Kihara. Há 31 anos este nobre engenheiro da sony inventava o que deveria ser o grande lançamento da empresa para as vendas de Natal nos Estados Unidos: Uma caixinha de música portátil, então chamada de walkman. Infelizmente o projeto chegou atrasado para emplacar na black friday americana mas saiu a tempo de colocar o nome deste senhor nipônico na história, na minha vida, e no meu blog.
Quem diz que o cão é o melhor amigo do homem nunca teve um walkman. Fato. O walkman é uma dessas grandes idéias que faz coisas como a cura da tuberculose ou a sonda em marte parecerem futilidades cientificas, piada nerd.
Imagine-se no coletivo parado no transito de deslumbrados natalinos. O que pode ser mais coerente que voz aveludada de Laura Marling no ouvido lhe dizendo pra "step away from my light, i need shine"?
É claro que você, leitor clichê que é, embuído do espirito festivo de dezembro, vai falar do fator anti-social desta pequena caixinha de felicidade. Mas John Legend contra ataca: "we just don't care!". Convenhamos isso aqui é São Paulo. Ninguém quer conhecer, ninguém quer ser conhecido. Você não vai fazer amizade com a tia gorda sentada no banco ao lado. Sua futura cara metade não esta neste momento acotovelando-se com um vendedor de chocolate na catraca. E se o tal fator anti-social faz parte da própria natureza da cidade, só a música pode transformar esse caos sufocante numa grande experiência sonora/cultural.
O que me lembra outra grande idéia do natal: Os bancos da paulista, travestidos de bons moços e exalando harmonia amor e paz na terra aos homens de bem, colocam pequenas caixas de som nas calçadas com uma brilhante seleção de músicas de elevador.
E foi ali, na porta do HSBC, ouvindo os versos rasgados de Ella Fitzgerald em Cry Me a River que eu pensei, porque não? Porque não, uma rádio comunitária na paulista inteira, o ano inteiro? A rádio paulista a acalmar os neuróticos engravatados na hora do almoço.
Vou além! Porque não uma Rádio Rio Pinheiros® para colorir aquela paisagem monocromática deprimente? Imagine dois avenidões horrorosos separados uma faixa fétida de água poluída rumo ao nada infinito e cercado por favelas que divivem espaço com enormes monstros amorfos de concreto e arquitetura de gosto duvidoso. O que pode ser mais eficiente para aplainar cenário tão desolador que Mike Skinner explicando que isso é só "a hardest way to make an easy living"?
E aí o Muse no meu fone avisa que "our hopes and expectations, black holes and revelations" e eu caio na real e lembro porque isso nunca poderia dar certo. É que pra ser um sucesso, além de iniciativa privada bancando a idéia, a seleção musical precisaria ficar a cargo do gosto popular. Acontece que é dificil ter de admitir e mais dificil ainda faze-lo sem parecer pretensioso, mas a verdade é que o gosto popular vai de mal a pior.

Volto ao walkman...

Listas...


Absolutamente parcial(como toda lista) discutível(na verdade indiscutível porque não to a fim de explicar a minha opinião) e incompleta. Até o fim do ano subo as musicas e boto uns trailers dos filmes.

Albuns do Ano:
1  Dj Hell - Teufelswerk
2  Dusty Kid - A Raver's Diary
3  Anthony And The Johnsons - The Crying Light
4  Vitalic - FlashMob
5  Kasabian - The West Ryder Pauper Lunatic Asylum
6  Dinosaur Jr - Farm
7  Decemberistis - Hazards of Love
8  Beirut - Live at the Music Hall of Williamsburg 
9  Basement Jaxx - Scars
10 Miss Kittin & The Hacker - Two

Músicas do Ano:
1 Kasabian - Ladies and Gentlemen (roll the dice)
2 Oliver Huntemamn & Dubfire - Diablo
3 Dj Hell & Brian Ferry - U Can Dance
4 Anthony & The Johnsons - Another World
5 Dusty Kid - America
6 Beirut - La Llorona
7 Venegas & Allendes - Lovizna
8 Anthony Rother - Big Boys
9 The Decemberists - The Hazards of Love IV (The Drowned)
10 Manu Chao - Rumba de Barcelona (live at Baionarena)

Filmes do Ano:
1 Bastardos Inglórios (Inglourious Bestards - EUA)
2 Ninguém liga para os gatos persas (No one knows about persian cats - Irã)
3 Lebanon (Lebanon - Israel)
4 Todo dia é feriado (Chaque Jour est une Fête - Líbano)
5 Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock - EUA)
6 Coco (Coco Avant Chanel - França)
7 Watchmen (Watchmen - EUA)
8 Caramelo (Sukkar banat - Líbano)
9 Abraços Partidos(Los Abrazos Rotos - Espanha)
10 Valsa com Bashir (Waltz with Bashir - Israel)

Acabou...


Esse delirio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na própria natureza humana. O espetáculo da luta sempre foi o maior encanto do homem. O prazer da vitória, pessoal ou do partido, foi, é e será a ambrosia dos deuses manipulada na terra. Admiramos hoje os grandes filósofos gregos, Platão, Sócrates, Aristóteles. Seus coevos, porém admiravam muito mais os atletas que venciam no estado.
Milon de Crotona, campeão na arte de torcer pescoços a touros, só para nós tem menos importância que seu mestre Pitágoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria inconcebível a idéia de que o filósofo pudesse no futuro ofuscar a glória do lutador.
...Entre nós há o exemplo recente de Friedenreich, um pé de boa pontaria pelo qual nossos meninos são capazes de sacrificar a vida.
E os delírios provocados pelo combate de dois campeões em campo? Impossível assistir-se a espetáculo mais revelador da alma humana que os jogos de futebol em que disputam a primazia paulistanos e italianos em São Paulo.
Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante todo o tempo da luta, de quarenta a cinquenta mil pessoas deliram em transe, extáticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, há pausas de silêncio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentíssimas de entusiasmo,que só a palavra delírio classifica. E gente pacífica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fora de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.
A luta de vinte e duas feras no campo transforma em feras os cinquenta mil espectadores, possibilitando um enfraquecimento mútuo, num conflito horrendo, caso um incidente qualquer funda em corisco as eletricidades psiquicas acumuladas em cada indivíduo.


Monteiro Lobato em 1921. Trecho publicado recentemente no ótimo 'O Futebol Explica o Brasil'.

Cousas do Football



Si procederdes cavalheiramente para com vosso adversário, para com os assistentes, e acatando todas as decisões dos dirigentes da pugna, tendes demonstrado possuir uma alevantada educação e, com isso, não restará a menor dúvida de que o transcurso do match será infalivelmente prenhe de lances belíssimos. Tão pronto tenhaes maguado um vosso leal adversário, atingindo-o casualmente com o pé, numa rebatida falsa, não vos demoreis em solicitar-lhe desculpas pelo incidente, pois ele, cavalheiro que é, não se lastimará por certo em reconhecer a involuntariedade da falta
(Odilon Penteado do Amaral no livro Cousas do Football, de 1920)