São Paulo, sexta feira 20h. Avenida Brasil, Brigadeiro Luiz Antonio e 23 de Maio completamente paradas porque há um monumento über kistch piscando ensandecidamente em frente o Ibirapuera. E a Avenida Paulista após as 19h vira um estacionamento porque 150 anos depois de Thomas Edson ainda tem gente maravilhada em ver uma lâmpada piscando! Nada contra o espirito natalino sabe? Eu adoro ver as pessoas passeado pelas luzes da Oscar Freire se imaginando na Times Square. Tem apple houses, tem gadgets on sale, tem até winter cookies na starbucks! Dia desses ainda neva nos Jardins!
Mas não é justo levar meia hora a mais pra voltar do trabalho porque você quer ver o Papai Noel pendurado na árvore.
Mas tudo tem seu lado positivo e é aí que entro no motivo deste post: Nobutoshi Kihara. Há 31 anos este nobre engenheiro da sony inventava o que deveria ser o grande lançamento da empresa para as vendas de Natal nos Estados Unidos: Uma caixinha de música portátil, então chamada de walkman. Infelizmente o projeto chegou atrasado para emplacar na black friday americana mas saiu a tempo de colocar o nome deste senhor nipônico na história, na minha vida, e no meu blog.
Quem diz que o cão é o melhor amigo do homem nunca teve um walkman. Fato. O walkman é uma dessas grandes idéias que faz coisas como a cura da tuberculose ou a sonda em marte parecerem futilidades cientificas, piada nerd.
Imagine-se no coletivo parado no transito de deslumbrados natalinos. O que pode ser mais coerente que voz aveludada de Laura Marling no ouvido lhe dizendo pra "
step away from my light, i need shine"?
É claro que você, leitor clichê que é, embuído do espirito festivo de dezembro, vai falar do fator anti-social desta pequena caixinha de felicidade. Mas John Legend contra ataca: "
we just don't care!". Convenhamos isso aqui é São Paulo. Ninguém quer conhecer, ninguém quer ser conhecido. Você não vai fazer amizade com a tia gorda sentada no banco ao lado. Sua futura cara metade não esta neste momento acotovelando-se com um vendedor de chocolate na catraca. E se o tal fator anti-social faz parte da própria natureza da cidade, só a música pode transformar esse caos sufocante numa grande experiência sonora/cultural.
O que me lembra outra grande idéia do natal: Os bancos da paulista, travestidos de bons moços e exalando harmonia amor e paz na terra aos homens de bem, colocam pequenas caixas de som nas calçadas com uma brilhante seleção de músicas de elevador.
E foi ali, na porta do HSBC, ouvindo os versos rasgados de Ella Fitzgerald em
Cry Me a River que eu pensei, porque não? Porque não, uma rádio comunitária na paulista inteira, o ano inteiro? A rádio paulista a acalmar os neuróticos engravatados na hora do almoço.
Vou além! Porque não uma Rádio Rio Pinheiros® para colorir aquela paisagem monocromática deprimente? Imagine dois avenidões horrorosos separados uma faixa fétida de água poluída rumo ao nada infinito e cercado por favelas que divivem espaço com enormes monstros amorfos de concreto e arquitetura de gosto duvidoso. O que pode ser mais eficiente para aplainar cenário tão desolador que Mike Skinner explicando que isso é só "
a hardest way to make an easy living"?
E aí o Muse no meu fone avisa que "
our hopes and expectations, black holes and revelations" e eu caio na real e lembro porque isso nunca poderia dar certo. É que pra ser um sucesso, além de iniciativa privada bancando a idéia, a seleção musical precisaria ficar a cargo do gosto popular. Acontece que é dificil ter de admitir e mais dificil ainda faze-lo sem parecer pretensioso, mas a verdade é que o gosto popular vai de mal a pior.
Volto ao walkman...