Já falei dele aqui.No ex aqui. No que era aqui antes de o aqui virar o aqui de agora. Mas vá lá...
Tem a mesma banca na esquina da praça roosevelt desde sempre. E desde sempre as pessoas colocam todo tipo de publicação gratuita/alternativa/ruim na armação onde bancas convencionais colocam o jornal do dia. É só chegar dar um oi e colocar. Percebi que recentemente as pessoas colocam folders de peças em cartaz e alguma propaganda poluidora também. Mas ele não reclama. Ele nunca olha feio pra ninguém.(pelo menos eu acho, quero dizer, ele É terrivelmente feio então seria técnicamente impossivel que ele olhasse bonito para alguém, mas nunca detectei agressividade).
Na verdade ele costuma sorrir e chamar as pessoas no diminutivo, perguntando como vai a vida. Um sorriso que aliás é a maior antítese autocontida desde o ice coffee de maracujá. Explico: A expressão dele parece ser composta de todas as piores coisas que a vida pode fazer com uma pessoa, mas que, quando ele as reagrupa rapidamente naquela ordem específica em seu rosto, faz que você sinta que "ah, bom, então está tudo bem".
Eu "frequentei" o lugar uns anos atrás. Toda quinta tinha nas supracitadas armações um negócio chamado Sampa Zine que era uma pequena coletanea de contos e crônicas de escritores amadores. Fazia sentido na época, e eu não lembro bem porque mas fazia sentido também o fato de ele saber meu nome, usa-lo no diminutivo e perguntar como ia a vida. Eu sempre respondia "bem, bem", pegava o tal zine e saía fingindo pressa. Foi mais de um ano assim e nunca perguntei seu nome ou respondi outra coisa que não "bem, bem" embora ele estivesse sempre testando novas variações de "como vai a vida". Não que eu tenha algo contra os compatriotas de Neruda. É só que eu não gosto das pessoas.
Pois dia desses era meu caminho, redescobri o lugar. Ainda estavam lá os folders de peças em cartaz, uns 3 meses de edições do guia off e até alguns
panfletos de mães de arbitros de futebol a oferecer maneiras bem pouco ortodoxas de livrar os homens desse grande mal de nosso tempo, a solidão.
Só não havia o Sampa Zine, esse realmente já deixou de existir, conforme me explicou o sorridente andino. Fato é que lembrar da finada publicação me deixou por um momento despido de minha habitual misantropia. Até me deu vontade de conversar com o homem. O sobrenome dele era Rojas, o mesmo daquele goleiro pivô da fraude do foguetório no maracanã, que acabou por ser banido do futebol. Banido foi também da lista de honra de outro Rojas, o seu Rojas. Este ultimo aliás se dizia envergonhado pela má reputação que seu chará havia conferido á época ao país andino. Deu inclusive uma alternativa ao banimento, alternativa muito mais realista (um realismo Tarantiniano, é bem verdade, mas ainda assim realista).
Acontece que o ódio contido de Seu Rojas não se restringia ao invulgar chará. Ele começou a falar dos fiscais do rapa que viviam inventando irregularidades na banquinha pra ganhar um "cafézinho". Pra esse problema ele também teria uma hipotética solução. Envolvia uma praça pública, uma árvore e uma corda. Foi aí que o chileno se empolgou.
Durante mais ou menos uns quinze minutos seu Rojas confessou-me todos os seus desafetos. E invariavelmente, em sua idealização de mundo, eles teriam destinos igualmente terriveis ou piores que os os anteriores.
A certa altura eu devo ter me desconcentrado pois quando voltei a escutá-lo o dialogo estava mais ou menos nesse nível:
-Ai eu fui lá e falei, "vai se foder!"
-E aí?
-E aí o que?
-Falou o que depois?
-Não, isso, falei "vai se foder".
A ofensa para seu Rojas era um fim, em si. E, admita-se, o homem era genial! No que tocava á arte do insulto a criatividade de seu Rojas não conhecia limites. Pensei, porque não? O cara não parava de sorrir, alguma razão ele precisava ter. Acontece que no mundo de Rojas todos seriam felizes porque tratariam seus desafetos com alternativas que variavam entre escoriações, perfuraçoes, decapitações e exploração de orificios. E graças a isso é que estariam sempre sorridentes, leves e desimpedidos para se chamarem por diminutivos, e perguntar como ia a vida. Que invariavelmente iria bem, elimidados que seriam os indesejaveis, ao melhor estilo chinese democracy.
Não se engane, seu Rojas não é um psicopata. Seu Rojas é o Oscar Niemeyer da arquitetura social. Fosse em outras circunstâncias ele escreveria best sellers de auto ajuda, cases de teoria política e roteiros de 'Jogos Mortais'.
Veja bem, todo dia a gente engole pequenos sapos cotidianos de alguém que não merece sequer dividir o mesmo planeta. E a sensação de impotência diante de tamanho despautério se traduz em igual reação a outrem, que nada tem a ver e que vai respectivamente propagar seus próprios impropérios, como uma imensa corrente do mal. E a cidade vai se brutalizando com o passar dos anos. Ah mas não no mundo de seu Rojas! Bastaria um engraçadinho disposto a prejudicar seu humor, e ele desenterraria todos aqueles relatos da inquisição espanhola e testaria no infeliz, um de cada vez...e depois todos ao mesmo tempo.
Porque seu Rojas era um cara que sabia das coisas.
"Protect me from what I want"
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“Eu jurei, que ia voltar, amor.” Jurou que um dia voltaria para casa e a
compreensão e o tempo seriam recompensados com afeto. Eu jurei que um dia
voltaria...
1 semana atrás



2 comentários:
Me manda o endereço desse cidadão...coincidentemente tô precisando torrar a paciência de um cliente chato daí de Sampa! hehehe
E sobre o comentário lá no meu blog, era mesmo uma metáfora... e eu admito a importância de reciclar, mas eu falava de lapidar! ;)
Beijo e obrigada pela visita! Bom fds!
não existem muito seu rojas atualmente, uma raridade.
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